Algumas narrativas baseadas em fatos reais parecem tão improváveis, que nem mesmo títulos de ficção seriam capazes de desenvolvê-las. Em especial no que diz respeito ao momento em que nossa capacidade inata de sobrevivência e adaptação se torna a única chance de enfrentar os acontecimentos.
Lançado oficialmente em 2015, a estreia da plataforma de streaming Filmelier+, “Abandonados” (Abandoned), tem uma trama que se encaixa com perfeição nesses moldes. O drama neozelandês gira em torno de quatro homens que, que após terem o barco em que estava, atingido por uma onda de 12 metros, ficam à deriva no mar, por inacreditáveis 119 dias.
Além de narrador, um dos protagonistas – John Glennie (interpretado por Peter Feeney) – é também autor do livro “The Spirit of Rose Noëlle”, que deu origem à produção – escrito em parceria com Jane Phare. A dupla é responsável pelo roteiro da adaptação, junto a Stephanie Johnson.
O ano é 1989 e o proprietário do trimarã Rose Noëelle, John, tem planos de sair Picton, Nova Zelândia, e fazer uma viagem de duas semanas para Tonga, na Oceania. Devido a mudanças de planos de sua tripulação original, ele precisa encontrar outros parceiros dispostos a encarar tal jornada.
É quando conhece o Rick (Owen Black), Phil (Greg Johnson) e Jim (Dominic Purcell), cujas personalidades distintas serão testadas no decorrer do tempo em que serão obrigados a passar, dividindo o muito restrito espaço de um navio naufragado de ponta-cabeça, desde o terceiro dia do cronograma.
O ambiente quase único do longa – o que restou da embarcação e o volume massivo de água que a cerca – dá uma ótima margem para que a direção de John Laing torne-se um de seus pontos altos. A tensão crescente frente a uma ameaça constante – nesse caso, o mar e todos os perigos que nele se escondem – faz com que o espectador sinta-se desamparado e em dúvida, assim como os náufragos vistos em tela.
Há ainda cenas com outros personagens (incluindo familiares do quarteto principal) que se passam em terra, para ilustrar as dificuldades em se manterem as buscas, quando o desaparecimento do navio e seus tripulantes já havia atingido um prazo mais extenso do que se poderia imaginar.
São essas sequências que também ajudam a entender determinadas atitudes tomadas diante da real possibilidade de tornar-se apenas uma estatística na contagem anual de acidentes marítimos.
Coisas que poderiam ser vistas como exageradas ou sem fundamento, na verdade carregam muito mais significado, quando sabemos o que se passou antes delas. E isso faz com que a desconfiança e até mesmo certa antipatia causada no público, acabem se diluindo, enquanto a torcida pelo resgate aumenta.
Com apenas 86 minutos de duração, “Abandonados” consegue atingir os pontos necessários para manter a atenção, principalmente de quem vai assistir à obra sabendo apenas o básico sobre sua história.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pelo Filmelier+


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