You are here: Home // Cinema // Crítica: “Bom Menino”

Crítica: “Bom Menino”

“Você notou que há algo errado com o Indy?”

Quem tem o privilégio de conviver com animais tem ciência do quanto eles são sensíveis a detalhes que, muitas vezes, não são claros para nós. Um olhar, um gesto simples, uma mudança sutil de comportamento e eles já assumem a postura de quem sabe que há algo diferente, mesmo que não compreendam exatamente o que é.

A surpreendente narrativa de “Bom Menino” (Good Boy) é apresentada a partir da perspectiva de Indy (este também seu nome real), um Retriever da Nova Escócia, que entrega uma das interpretações mais eficientes do ano.

Seu tutor, Todd (Shane Jensen), sofre de uma doença pulmonar crônica. Sob veementes protestos de sua irmã, Vera (Arielle Friedman), e em busca de resultados para um tratamento alternativo, o jovem se muda para uma casa isolada, que se encontrava vazia desde a morte de seu avô.

Esse é o cenário no qual a história se passa quase que totalmente. E onde Indy viverá momentos de terror, apreensão e dúvida ao ser o único que visualiza o que se esconde dos olhos dos humanos, mas que surge com assustadora clareza para ele.

Com uma duração de apenas 72 minutos, a produção é um grande acerto em várias frentes. A maior, sem dúvidas, é a escolha de seu protagonista canino, que nos faz enxergar cada um de seus sentimentos – seja através de olhares repletos de significado, de latidos que soam como pedidos de socorros ou de posturas que nos lembram da força da fidelidade que os cachorros têm para com seus tutores.

Outro destaque fica para o trabalho de fotografia do diretor / verdadeiro tutor do cãozinho, Ben Leonberg (nessa função, creditado como Wade Grebnoel), que se finca na simplicidade para construir cenas nas quais sombras, silhuetas e detalhes ajudam não só a manter, mas a proporcionar uma escalada crescente da tensão.

Ao priorizar os enquadramentos na altura dos olhos de Indy, Leonberg (que também assina o roteiro junto a Alex Cannon) nos coloca em uma posição de vulnerabilidade, com a nitidez dos rostos ficando em segundo plano a maior parte do tempo. Tornamo-nos alguém que não pode fugir do perigo, ainda que não entendamos o que está se desenrolando ao redor.

Tal qual o carismático cachorro, sabemos que há algo (muito) errado, mas não temos informações suficientes nos defender. Mas, nesse caso, basta saber que o centro do mundo de Indy, Todd, necessita de sua presença, mesmo que seja apenas para lembrar-se de que não passará por toda dor sozinho.

É seguro dizer que o filme – que demorou três anos para ser concluído – não encontrará lugar no coração de quem não tem empatia ou apego por animais em geral, por razões tristes e óbvias. Assim como é possível afirmar o quanto a obra tocará aqueles que reconhecerão em tela, atitudes do dia a dia de seus companheiros de quatro patas.

Sem contar com muitos jumps scares ou com sequência explícitas, “Bom Menino” surge como uma das melhores opções do gênero terror do ano. E, embora não seja essa sua intenção (pelo menos não de maneira direta), promove uma excelente reflexão sobre a importância de se respeitar e lutar pelo bem-estar daqueles que nos são caros. Coisa que os animais já nascem sabendo.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.

comment closed

Copyright © - 2008 A Toupeira. Todos os direitos reservados.