Filmes de bonecos malignos existem há décadas, dos mais clássicos “Brinquedo Assassino” e “Mestre dos Brinquedos”, aos sucessos mais recentes de “M3GAN”, “Annabelle” e “Five Nights At Freddy’s – O Pesadelo Sem Fim”.
Vindo do Japão, agora temos “Dollhouse”. Aqui, Kae Suzuki (Masami Nagasawa), uma mãe abalada pela trágica perda de sua filha, Mei (Totoka Honda), passa a cuidar de uma boneca chamada Aya, estranhamente parecida com a menina. Após o nascimento de um segundo bebê, o brinquedo é guardado. Quando a nova criança, Mai (Aoi Ikemura) o descobre, acontecimentos macabros passam a acontecer.
O primeiro destaque é o clima escolhido para a obra. Enquanto a maioria dos títulos que mencionei e outros semelhantes costumam ser slashers de perseguição com o boneco sendo algum tipo de serial killer que deixam pilhas de corpos, “Dollhouse” é um suspense sobrenatural de fantasmas, muito mais focado em investigação e tensão com eventuais jumpscares (sustos).
A mescla de maquiagem e efeitos de câmera combinada com a boa atuação do elenco é o que permite gerar as intensas cenas de horror sobrenatural da narrativa escrita e dirigida por Shinobu Yaguchi. Parte da tensão é gerada por não sabemos com certeza o que é real, sonho, ilusão criada pela boneca ou alucinação gerada pelo desespero.
Mais do que dano físico – que ocorre em quantidade cada vez maior ao longo da trama – temos a destruição mental progressiva de quem lida com o brinquedo associado à desestruturação de relações familiares.
Podemos dividir o longa em três partes: a primeira pela mãe em processo de luto; a segunda pelo pai, Tadahiko Suzuki (Kôji Seto), lidando com o sobrenatural; e a terceira com ambos juntos atrás da origem da boneca, ajudando a variar o ponto de vista dos acontecimentos.
Pontos esses que se ampliam e se completam na medida em que vemos filmagens, discursos de sacerdotes, análises médicas, entre outros, evitando a monotonia e gerando uma descrição bem ampla daquele mundo, sem nunca perder o foco na boneca e na sua relação com a família.
Uma pequena surpresa, sem spoilers, são os pontuais alívios cômicos, com destaque para os youtubers que investigam mistérios. E não são cenas jogadas, mas fatos coerentes que progridem a trama.
Acrescento ainda as cenas de horror envolvendo cabelo. Se no ocidente, a fantasma japonesa de cabelos lisos até o chão nos foi apresentado em “O Chamado”, no Japão é um modelo muito mais antigo, originado do sucesso de “Onibaba, A Mulher Demônio”. E em “Dollhouse” há vestígios desse conceito visual bem utilizado, sem a mera repetição da figura clássica.
Fazendo a releitura de algumas lendas japonesas, o filme cria um universo próprio no qual vamos emergindo, desvendando seus mistérios, ficando ansiosos com quem vai sobreviver e qual o estado mental de quem restar no final.
Uma história sobre como as cicatrizes de lutos e perdas mal resolvidas podem gerar problemas cada vez maiores e se tornarem instrumentos de manipulação por agentes mal intencionados. Excelente tanto para os fãs de assombrações, bonecos amaldiçoados e terror asiático como um todo.
por Luiz Cecanecchia – especial para A Toupeira
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sato Company.


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