“Deus não pode me julgar por ser incapaz de viver sem amor” (Vlad III)
É admirável o modo como uma história pode ser contada inúmeras vezes, sob os mais diversos pontos de vista e ainda assim, permanecer impactante. São poucos os conteúdos que conseguem tal feito e, certamente, “Drácula”, a obra máxima do romancista e posta irlandês Bram Stoker está entre eles.
Pode-se afirmar que, mesmo aqueles que não consomem o referido tipo de material, já tenham ouvido falar na história de Drácula, poderoso vampiro que se tornou o símbolo supremo dessa criatura, cuja concepção teria como base o conde romeno Vlad III – que passou a ser conhecido pela pouca amigável alcunha de “O Empalador”.
A ostentadora figura retorna aos cinemas, dessa vez sob o roteiro e a direção de Luc Besson, em uma obra que deixa de lado o aspecto do terror absoluto, para dar à luz um charmoso romance gótico, que envolve o espectador através de um texto amparado por um sentimento que atravessa os séculos.
A trama de “Drácula: Uma História de Amor Eterno” (Dracula: A Love Tale) começa em 1480, na Romênia, e gira em torno do intenso relacionamento entre o Príncipe romeno Vlad III (Caleb Landry Jones) e sua idolatrada esposa, Princesa Elisabeta (Zöe Bleu). O jovem casal, que tem no amor que sentem um pelo outro, a base de suas existências, vê tudo mudar quando Vlad é convocado a entrar em uma sangrenta batalha contra o Império Otomano, cujo resultado é catastrófico: a perda de sua crença em Deus, após a cruel morte de Elisabeta.
O filme percorre quatro séculos e mostra a busca de Vlad por aquela que seria a reencarnação de sua amada. E o público faz uma viagem por marcantes e luxuosas eras que comprovam que nenhuma riqueza do mundo é capaz de substituir o que há de mais precioso a alguém que tem a sorte de encontrar o amor verdadeiro.
Agora passada em Paris, no ano de 1739, a narrativa mostra todos os passos até o reencontro de almas ansiado há tanto tempo por Vlad, que enxerga em Mina Harker (Zöe Bleu), a versão renascida de Elisabeta. Resta ao protagonista trazer à tona o que seriam memórias da vida passada da jovem a seu lado, a fim de ficarem juntos novamente.
Três outros personagens tornam-se ainda mais interessantes quando observados sob a ótica da adaptação feita a partir do texto original de Stoker: Jonathan Harker (Even Abid) não tem o mesmo destaque que na publicação original, mas segue relevante, por ser o noivo de Mina; com sua exuberância quase demasiada, Maria (Matilda De Angelis) ocupa nas telas, o lugar que é das Noivas de Drácula e de Lucy Westenra, nas páginas do livro lançado em 1897.
Fechando a tríade, o padre alemão vivido por Christopher Waltz assume o papel de Caçador de Monstros, função atribuída na obra literária, ao médico / professor holandês Abraham Van Helsing – uma referência quando de trata de combatentes de forças sobrenaturais e vampirescas.
Criados por Corinne Bruand, os figurinos são deslumbrantes. Das requintadas vestimentas de Vlad, que se adequam com perfeição à passagem do tempo, à delicadeza dos trajes de Mina – em contraste com a expansividade de Maria – cada acessório parece ter algo a dizer. Em especial, a belíssima armadura usada pelo príncipe, vista na guerra que dá início a tudo, e que remete diretamente à palavra romena “Dracul” (cujo significado transita entre “Dragão” e “Diabo”).
Cabe ressaltar ainda o sempre primoroso trabalho de Danny Elfman, que, mais uma vez, compõe uma trilha que enriquece as imagens e ajuda a construir a aura necessária a cada sequência. Assim como a fotografia de Colin Wandersman, que consegue lidar com momentos de escuridão, sem que esta prejudique o que se pretende mostrar.
Deixando clara sua intenção desde o título, ao longo de 129 minutos, “Drácula: Uma História de Amor Eterno” entrega o que propõe: um longa que encontra beleza e sentimento em algo mais comumente (e de maneira acertada) associado apenas ao terror.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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