“Às vezes na vida, você precisa de uma razão para não cair”
Relações familiares quase nunca são simples. E, quando não existe uma franca colaboração por parte dos envolvidos, a tendência é piorar, com o passar dos anos e a falta de resolução de mágoas que afetam diretamente o que era para ser um convívio pacífico.
Mas, de vez em quando, alguns têm a oportunidade de reescrever seus finais, acrescentando uma dose de perdão e resiliência. E esse é o pilar de “Faz de Conta que é Paris” (Pare Parecchio Parigi), comédia italiana cujo roteiro é livremente baseado na história real dos irmãos Michele e Gianni Bugli que, em 1982 levaram seu pai doente em uma viagem de van até a capital francesa – sem nunca terem saído de sua propriedade na Toscana.
Na trama escrita (em parceria com Filippo Bologna), dirigida e protagonizada por Leonardo Pieraccioni, conhecemos o veterano professor Arnaldo Cannistraci (Nino Frassica) que, aos 81 anos tem um diagnóstico pouco favorável que indica que sua trajetória está no fim.
Com problemas de locomoção e a quase totalidade de sua visão perdida, ele acaba (incentivado propositalmente por seu médico) retomando o contato com seus filhos, a quem não procurava há cinco anos, desde o repentino falecimento de sua esposa, Anna (Giorgia Trasselli).
Sem nenhuma disposição / pretensão de cuidar de um pai no fim da vida, os irmãos Bernardo (Leonardo Pieraccioni), Ivana (Giulia Bevilaqua) e Giovanna (Chiara Francini) terão que chegar a um consenso sobre como proceder após a alta de Arnaldo e a constatação da irreversibilidade de seu quadro.
É quando decidem fazer uma última coisa boa para seu pai, ao realizar um sonho há muito acalentado por todos: conhecer Paris. Mas, como concretizá-lo, quando há a proibição médica de embarcar nessa viagem?
Inspirados pela oportunidade de estar em família pela primeira vez em muito tempo, e deixando aflorar a esperança germinada quando ainda eram crianças e não enxergam qualquer tipo de obstáculo para fazer a almejada excursão, o trio se junta na missão de convencer Arnaldo que ir à Cidade Luz era algo possível, apesar de tudo.
Para isso, arquitetam um mirabolante e sensível plano, que implica fingirem que estão rodando a estrada em um trailer alugado, por tempo suficiente, porém, sem nunca sair das dependências do Centro Equestre pertencente a Bernardo, localizado em Florença.
Ir junto ao quarteto nessa travessia, onde – como dito em dado momento do longa: “O único pedágio a pagar é o da fantasia” – é um convite irrecusável feita a cada espectador, a fim de que também acabemos olhando de maneira diferente para a própria bagagem emocional e percebamos quantas coisas perdemos no caminho, por falta de diálogo ou medo de assumir erros.
Embora o destino derradeiro não seja uma surpresa – diante do que já sabemos – o percurso até lá é o que faz tudo valer a pena. São descobertas, confissões, sentimentos renovados, reencontros consigo próprio e com aqueles que são importantes, no final das contas.
O mais bonito de “Faz de Conta que é Paris” é que, em nenhum momento, o filme apela para o sentimentalismo fácil / desnecessário. A empatia e torcida pelos personagens surge de maneira natural, como deve ser com os melhores e mais duradouros relacionamentos.
Destaque para as interpretações do quarteto principal, que convence tanto nos momentos cômicos, quanto nos mais emocionais, fazendo o público acreditar que são, de fato, uma família que vai se agarrar à chance de se reencontrar. E, para a canção “Pare Parecchio Parigi”, de Neena, cuja melodia segue ecoando, mesmo quando os créditos terminam.
Adorável e comovente. Altamente recomendado.
por Angela Debellis
*Titulo assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Pandora Filmes.


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