“Quando se ama uma coisa, é fácil fazer sacrifícios”
Tornar-se o melhor entre os melhores. Aquele cuja fama se sobrepõe à própria identidade, alguém que passa a ser reconhecido como uma figura quase mística, inalcançável. “O Cara”. Esse é o sonho de Cameron Cade (Tyriaq Whiters) em “GOAT” (Him), que, desde a infância (nessa fase interpretado por Austin Pulliam) almeja a posição de quarterback no time texano do San Antonio Saviors.
Ambição levada a sério por sua família, em especial o pai (vivido por Don Benjamin), que vê a prática do futebol americano como algo sagrado, com direito a uma espécie de altar montado na sala de sua casa, próximo à televisão na qual acompanha os jogos.
A adoração pela modalidade tem nome e sobrenome: Isaiah White (Marlon Wayans), jogador venerado pelos fãs que passam a enxergá-lo como um verdadeiro milagre, devido a uma inexplicável recuperação, após um grave acidente que tinha tudo para encerrar prematuramente sua carreira.
Escrita por Justin Tipping (também à frente da direção), Zack Akers e Skip Bronkie, a narrativa dá um salto de quatorze anos, para nos mostrar Cameron já adulto, às vésperas de um teste que poderia colocá-lo na disputada NFL (National Football League), a liga esportiva profissional de futebol americano dos Estados Unidos.
Mas, quando um suposto fã ataca o jovem, suas expectativas parecem ter se perdido, uma vez que, graças a um traumatismo cerebral, a recomendação é não ter nenhum tipo de novo atrito com a cabeça – algo impensável na prática de tal esporte.
Tentando ajudar o rapaz – e garantir uma boa comissão como seu agente -, Tom (Tim Heidecker) sugere que ele vá passar alguns dias em um complexo isolado no meio do deserto, onde o agora octacampeão – e quase aposentado – Isaiah vive ao lado da esposa, Elsie (Julia Fox), uma peculiar influencer.
A possibilidade de não só estar perto de, mas ser treinado por seu ídolo de infância é o bastante para convencer Cameron a aceitar a proposta. Contudo, os bastidores – como sempre – escondem segredos que nem os mais fortes dos holofotes é capaz de iluminar e, o que era para ser uma jornada de aprendizado, torna-se uma surpreendente luta pela sobrevivência.
Há muitos pontos válidos em “GOAT”, a começar pela inteligente decisão de usar tão designação que, conforme o ângulo pelo qual se olha, tem uma interpretação diferente, podendo simbolizar tanto “Greatest of all time” (Maior de todos os tempos), quanto “Bode”, animal que se tornou mascote de vários times da liga, e que também é amplamente representado em literatura de diversas naturezas religiosas.
Essa disparidade de significados ajuda a explicar o que se vê em tela. Entre elementos clássicos dos jogos disputados nos campos de 120 jardas – e todas as glórias que vêm com o sucesso obtido dentro deles – também há representações que aludem a rituais com tons obscuros e aspirações macabras. Tudo condensado no eficiente trabalho de fotografia de Kira Kelly e atuações que convencem na medida. Porém, nem tudo são touchdowns ou acertos e também há pontos que não alcançam o efeito esperado.
Entre eles, o fato de a história ter muitos tópicos simultâneos – ainda que a história central gire em torne da iniciação de Cameron no mundo por trás do glamour vivido por grandes jogadores em seu auge – que poderiam ter desenvolvimentos mais apurados, caso a duração de 96 minutos do filme fosse um pouco mais extensa.
Ainda sobre destaques positivos, é nítido o cuidado com detalhes que podem passar despercebidos por olhos desatentos, mas que merecem crédito pela sutileza com que são inseridos em cena e pelo conceito de cada um – particularmente, no que diz respeito à união do corpo físico, do esporte e da espiritualidade.
Quando não extrapola os limites e se enreda em sua pretensão, tal entrelaçamento mostra-se relevante e sagaz, assim como também é a ideia geral da narrativa, embora o resultado fique abaixo do que poderia ser de verdade. Vale dizer que há uma cena adicional bem interessante e que talvez carregue a melhor reflexão da trama.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.


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