Crítica: “Jorge da Capadócia”

Biografias (cinematográficas e literárias) talvez sejam a base de um dos gêneros mais difíceis de se trabalhar. Contar a história de alguém, com detalhes o suficiente para prender a atenção do público, mas sem cair no erro do exagero – colocando em dúvida a credibilidade do conteúdo – é o que vai definir o sucesso (ou não) da obra.

Toda essa problemática é amplificada quando o biografado é alguém relacionado a temas polêmicos, como religião e política. O que pode parecer adequado a alguns, muitas vezes beira o intolerável para outros. Tudo depende do ponto de vista tão particular de cada espectador / leitor.

Como o próprio título indica, o longa nacional “Jorge da Capadócia” – que gerou o livro de Alexandre Machafer e Crib Tanaka, “Jorge da Capadócia: Os bastidores do primeiro filme sobre o Santo Guerreiro” – assume o desafio de levar às telas, a história do soldado romano que se tornou um dos santos mais populares do cristianismo.

A narrativa se passa em 303 D.C., na Capadócia (que atualmente faz parte da Turquia), quando o imperador Diocleciano (Roberto Bomtempo) – ferrenho defensor da crença em deuses romanos – inicia a última perseguição aos cristãos. A seu lado, o fiel / detestável conselheiro e assecla, Octávio (Ricardo Soares), ajuda a colocar em prática as mais cruéis ações.

Após perder a esposa Rita (Louise Clós) e seu filho único – após complicações no parto, vendo a mãe Kira (Cyria Coentro) ser derrotada pela tuberculose, e recém-promovido a capitão do Império Romano, Jorge (Alexandre Machafer, que também é diretor e produtor) começa a questionar até que ponto as ordens explícitas que tem que acatar influenciam diretamente seus valores religiosos.

O protagonista, assim como seu fiel amigo Paulo (Augusto Garcia), o comandante, Jano (Adriano Garib) e tantos outros na época, era obrigado a esconder sua fé cristã, sob o risco de ser torturado até a morte. Quando decide entrar em franco combate contra o impiedoso imperador, Jorge torna-se alvo das piores humilhações – físicas e emocionais – que visam desestabilizar a certeza que tem na salvação de Cristo.

Porém, conforme as agressões avançam, mais fica nítido que sua fé é capaz de operar milagres, já que, mais de uma vez, depois de ser dado como morto, ele consegue retornar (ferido, é verdade, mas, tão consciente, quanto confiante). Tal fato acaba impressionado até mesmo a esposa do imperador, Alexandra (Miriam Freeland), que se converte ao cristianismo – e, obviamente, sofre todas as consequências disso.

A trama escrita por Matheus Souza se baseia, em especial, na trajetória de Jorge após declinar de seu posto de capitão. A atitude que começa sendo vista como uma afronta ao imperador, logo se torna motivo de esperança para os cristãos, que passam a presenciar milagres promovidos pelo agora ex-soldado. Isso marcará o início da história até hoje disseminada entre seus fiéis devotos, que lhe deram a designação de “Santo Guerreiro”.

Quem conhece pelo menos alguma parte da vida de Jorge, sabe que seu final não foi feliz (se o fosse, não seria considerado mártir). E, é por trazer à luz temas tão cheios de significado que “Jorge da Capadócia” torna-se uma opção válida, embora haja algumas deficiências de execução (assim como há boas surpresas, como o dragão, convincente na maior parte das cenas em que aparece).

Independente de religião, é válido perceber o quanto, mesmo após tão extensa passagem de anos, determinadas menções contidas no texto são capazes de ainda fazer sentido em dias atuais, como a que prega: “Diante da intolerância, levantem-se e lutem”.

Não creio ser o intuito da equipe por trás da produção, angariar novos devotos (o que seria algo muito difícil de conseguir, fazendo uso apenas de uma obra cinematográfica). Assim como imagino que os fiéis que já nutrem simpatia pela figura do santo considerado pelo Vaticano como o padroeiro dos cavaleiros, soldados, escoteiros, esgrimistas e arqueiros, devem sair satisfeitos das salas de cinema.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.

Filed in: Cinema

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