Um mergulho nos bastidores da precisão e beleza do Kabuki, teatro tradicional japonês. Esse é “Kokuho – O Preço da Perfeição” (Kokuhô), longa baseado no romance homônimo de Shuichi Yoshida.
Na trama passada em 1964, na cidade de Nagazaki, dois garotos são criados como irmãos, por um ator famoso e respeitado no universo geracional e hereditário do Teatro Kabuki.
O filho biológico, Shunsuke Ōgaki / Hanai Han’ya (vivido por Keitatsu Koshiyama na adolescência / Ryusei Yokohama, quando adulto), e o filho acolhido, Kikuo Tachibana / Hanai Toichiro (Sōya Kurokawa, na fase adolescente / Ryô Yoshizawa, na fase adulta), passam a ter uma rotina de ensaios e dedicação em busca da perfeição, orientados pela estrela maior, o pai, Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe).
Os jovens começam a se apresentar juntos, numa crescente exploração de sucesso. A mãe de Shunsuke nunca foi simpática com o recebido, e insiste que o Kabuki é uma arte que exige sangue familiar.
Um tem o sangue tradicional da família Kabuki, enquanto o outro é filho de um mafioso morto, não tem tradição e nem parentesco, mas possui talento nato. E o que era amizade e cumplicidade vai se tornando uma disputa, principalmente quando o herdeiro do grande ator não é o filho de sangue.
“Kokuho – O Preço da Perfeição” é um belo filme, que nos encanta com o gestual e a estética impecáveis do Teatro Kabuki, a absoluta técnica dos dois atores, e a precisão de seus movimentos multiplicados. Por outro lado, por trás da beleza e perfeição, as relações humanas vão sendo deterioradas, e a ambição – inerente ao ser humano – vai destruindo sonhos alheios, o futuro e a esperança.
As cores contrastantes diferenciam a alegria simbólica do palco e a representação melancólica da vida real, mais opaca, mais triste. A produção tem quase três horas de duração, mas estas passam muito rápido. Causa fascínio ver aqueles dois jovens que se transformam em cena, com toda a delicadeza do gestual feminino, e tudo o que há de sublime na arte Kabuki.
Como em toda história do teatro mundial, tem-se registro de que mulheres não podiam atuar, e assim foi também com o Kabuki, onde atores homens se transformavam em delicadas heroínas e se consagravam passando a vida inteira sob as vestes e maquiagens de uma personagem mulher. Assim foi a vida de Hanai Hanjiro II, que definiu seu sucessor preferindo o mais talentoso e quebrou a tradicional escolha pela descendência.
Indicado ao Oscar de Melhor Cabelo e Maquiagem, com direção de Sang-il Lee e roteiro Satoko Okudera, “Kokuho – O Preço da Perfeição” é uma obra muito delicada que certamente terá seu lugar garantido entre os grandes filmes de arte.
por Carlos Marroco – especial para A Toupeira
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Sato Company.


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