Os animais têm muito a nos ensinar. Às vezes nem nos damos conta disso, mas a verdade é que quando estamos dispostos a entender a grandiosidade desse vínculo, temos a chance de escrever histórias emocionantes e cheias de relevância em nossas trajetórias.
“Lições de Liberdade” (The Penguin Lessons) chega aos cinemas com a missão de adaptar o comovente livro de Tom Michell – lançado em 2015 – que narra como um inesperado encontro com um pinguim mudou não só a sua vida, mas a de muitos que o cercam.
Sob a direção de Peter Cattaneo, a narrativa se passa em 1976 e mostra o professor britânico Tom Michell (Steve Coogan) em seus primeiros dias na Argentina, onde vai trabalhar como docente do oitavo ano no St. Georges, um internato para garotos.
O país está em um turbilhão político, prestes a vivenciar o golpe militar que culminou na Ditadura que tanto mal fez à população local, durante os anos em que esteve na ativa. A tensão nas ruas é sufocante e a realidade dos cidadãos implica na constante dúvida sobre como sobreviver às consequências de um regime tão cruel.
Em meio a esse quadro, Tom faz uma curta viagem ao Uruguai, e durante a visita a cidade de Punta del Este, ele encontra um único sobrevivente entre dezenas de aves vítimas de um derramamento de óleo no mar.
Decidido a salvar o valente pinguim, após um banho para eliminar qualquer traço de sujeira que pudesse comprometer sua saúde, o professor o conduz de volta à praia, mas acaba surpreendido por uma atitude que, pessoas que convivem com animais já conhecem bem: a insistência do resgatado em manter-se junto àqueles que lhe deram uma segunda chance.
Sem ter alternativa, Tom aceita o fato de ganhar um companheiro de viagem em seu retorno ao colégio. E, enquanto busca uma solução que lhe pareça mais lógica (como recorrer a um zoológico que pudesse abrigar o pequenino), ele percebe o quanto essa coincidência vai impactar sua realidade tão carente de gentilezas.
Agora nomeado como Juan Salvador (assim como o protagonista do belíssimo livro de Richard Bach, que, no Brasil, ganhou a tradução “Fernão Capelo Gaivota”), o pinguim torna-se uma espécie de segredo que não se pode manter a sete chaves, mas que acaba abraçado por quem o descobre.
Do gentil Diego Garcia (David Herrero), aluno que sofre bullying por parte dos colegas, devido a inclinações partidárias de sua família, a Tapio (Björn Gustafsson), professor de finlandês e física, muitos são os beneficiados pela chegada de Juan Salvador, que, sem dizer uma palavra, demonstra mais receptividade do que muitos humanos que se julgam racionais.
“Lições de um Pinguim”, embora pareça apenas um (sempre bem-vindo) título sensível que conta a história real de um animalzinho, é mais do que isso. Entre a descoberta de um mundo menos apático e mais afável, também há a ameaça imposta pela sombra de figuras que se colocam em posição de poder absoluto e creem ter o direito de escrever como será o destino daqueles que não pensam como elas.
O assunto é abordado um jeito menos pesado, mas impactante, através dos olhos de Maria (Vivian El Jaber) e sua neta Sofia (Alfonsina Carrocio), faxineiras do colégio e primeiras a ter contato com Juan Salvador, compreendendo imediatamente o quanto sua presença era necessária, ainda que em um lugar que parecia tão improvável de acolhê-lo.
Tirando as inevitáveis diferenças que uma obra literária sofre ao ganhar uma adaptação cinematográfica, o roteiro escrito por Jeff Pope aborda com eficácia a trama contada por Tom Michell nas páginas de seu livro – escrito a partir do sentimento causado por uma gravação amadora realizada nas dependências do colégio, que mostrava o pinguim nadando satisfeito na piscina do estabelecimento.
Nas palavras do escritor / filósofo norte-americano Elbert Hubbard, “Amigo é aquele que sabe tudo a seu respeito e, mesmo assim, ainda gosta de você”. E eu acho que “Lições de um Pinguim” consegue ilustrar essa afirmação de maneira sublime.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.


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