“Olhe para longe.”
Indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2029, “Mirai” (Mirai no Mirai / Mirai of the Future) agora está disponível no catálogo do Filmelier+, como parte da Retrospectiva de seu diretor / roteirista, Mamoru Hosoda.
Passada na cidade japonesa de Yokohama, a trama nos apresenta uma família comum, constituída por um casal, um filho de quatro anos e uma garotinha recém-nascida. A dinâmica desses personagens é contada de maneira a aproximar o público de seu cotidiano tão simples e verossímil.
Quando Kun deixa o posto de filho único para transformar-se em um irmão mais velho, deve encarar algo que nunca havia sentido: ciúmes. A chegada de Mirai (cujo nome, apropriadamente, significa “Futuro” em japonês) faz com que seus pais precisem dividir os cuidados que antes cabiam apenas a ele. E isso nem sempre é algo fácil de aceitar.
Buscando voltar a ser o centro das atenções, o menino passa a ter atitudes pouco agradáveis. São gritos, choros desnecessários, birras, desobediência constante. Algo que pode ser encarado com mais naturalidade por quem já convive com crianças, mas que deve incomodar aqueles que não têm tal proximidade.
Com o retorno da mãe ao trabalho e a decisão do pai (cuja habilidade é inversamente proporcional à boa vontade) em conciliar suas funções de arquiteto com os deveres de casa – incluindo cuidar dos filhos – Kun se vê ainda mais perdido na dor que ele mesmo criou (já que não há nenhuma menção a alguma suposta negligência por parte de seus pais).
As partes mais interessantes da animação são as que se passam no jardim da casa. O local – um jardim tradicional – é o palco para que a imaginação do garoto ganhe asas e ele faça viagens através do tempo, seja para reencontrar antepassados – como seu bisavô quando jovem ou a própria mãe, quando criança – ou conhecer versões futuras de si mesmo e da irmã caçula.
Sua interação com uma versão humana do cachorro da família, Yukko, é muito divertida, com os espectadores tendo a chance de acompanhar tanto o que se passa na cabeça de Kun, quanto o que de fato está acontecendo.
A complexidade de algumas sequências – seja visual ou emocionalmente falando – podem causar alguns questionamentos no público, afinal, são muito além do que a imaginação de alguém tão novo seria capaz de projetar.
O que abre um novo leque de opções para explicar o que vemos: talvez, mais do que pensamentos que servem como uma fuga da realidade, Kun esteja vivenciando experiências proporcionadas por algum portal de origem desconhecida, que transforma aquela área específica de sua residência em um local mágico.
O roteiro de “Mirai” não oferece nenhuma explicação mirabolante, focando-se mais no que é fácil de compreender. Deixar para cada um fazer sua interpretação pessoal, refletindo sobre as escolhas que fazemos em relação aos que nos cercam é uma boa decisão, que faz a obra conquistar a simpatia de quem a assiste.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pelo Filmelier+.


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