Entre tudo que podemos acumular no decorrer de nossas vidas, talvez as memórias sejam, no final das contas, nosso bem mais precioso. As boas ajudam a seguir em frente; as más mostram os erros que não devem ser cometidos por nós mesmo, nem permitidos a quem nos fere.
Mas, o que fazer quando esse “Baú” que enchemos com o passar dos anos começa a deteriorar? Quando não é mais capaz de armazenar novas lembranças, atendo-se àquelas que o tempo transformou em algo cada vez mais distante?
Escrita por Emanuel Aragão, a narrativa de “Nada” trata justamente sobre essa dura caminhada que implica no apagamento de nossa história. O longa é centrada em duas irmãs que tentam retomar os laços após trinta anos de distanciamento, após um doloroso diagnóstico.
Tereza (Denise Stutz), a primogênita, nunca deixou a fazenda onde nasceu. Após a morte dos pais e a mudança da caçula Ana (Bel Kovarick), tonou-se ainda mais reclusa em seu universo particular, moldando-se como uma figura à parte, que dá a sensação de não pertencer ao mundo que a cerca.
Quando um aneurisma é detectado em seu cérebro, é hora de, ainda que nunca de maneira direta, aceitar a aproximação de Ana, que deixa de lado seus compromissos como artista plástica, para dedicar-se ao bem-estar da irmã que parece minguar (física e emocionalmente) a olhos vistos.
Esse resgate de um tempo que não pode ser recuperado traz à tona fatos do passado, que alternam entre sorrisos pálidos e manchas irremovíveis. A lucidez com que Tereza fala dos dias que ficaram para trás é tão grande quanto sua dificuldade em lidar com o momento atual. Como se os registros de uma página há muito escrita deixassem de ser nítidos, ainda que permaneçam impressos no papel.
Essa perda é mostrada em tela através de longas sequências sem diálogo, que contam apenas com os sons ambientes – sejam o bater de um talher no prato, ou as folhas secas sob os sapatos de quem nelas pisa. Do mesmo modo, como ganha contornos tristes, quando vemos Tereza em monólogos que retratam com precisão acontecimentos de sua infância e juventude, incluindo a forte presença dos pais em sua rotina.
Dirigido por Adriano Guimarães – e codirigido por Fernando Guimarães, o filme brasiliense surpreende ao mesclar drama a realismo fantástico, com a inclusão de uma misteriosa antena na trama. O objeto seria responsável por influenciar moradores das redondezas, cada qual reagindo de uma forma diferente e contada com ares quase místicos.
É quando a produção faz um uso mais latente de metáforas – como a cena que mostra Ana andando pelos ambientes da casa de Tereza, enquanto acende/apaga as luzes, ou quando descobrimos que não há sinal de celular na propriedade, havendo a necessidade de distanciar-se dela, para recuperar o contato com o mundo exterior.
Assim como o tema tratado, “Nada” não é um filme simples de se assistir. Seja pelo ritmo mais vagaroso, pelos poucos diálogos ou mesmo pelo desconforto em ver pessoas próximas destinadas a um final pouco promissor, a obra tende a ser válida pelo espectador que buscar uma alternativa aos conteúdos que dominam as telas ultimamente.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Embaúba Filmes.


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