É possível juntar ditadura com tubarão, carnaval com trash, e morte com humor? Na cabeça e roteiro de Kleber Mendonça Filho, sim.
A trama de “O Agente Secreto” se passa em 1977, durante o período da ditadura militar. Mas este não é simplesmente um filme histórico, uma vez que mostra a época crítica com outro olhar, ao sair do núcleo Rio – São Paulo, fugindo para outro lugar menos evidente, neste caso, a capital de Pernambuco, Recife.
Com Wagner Moura dando vida ao protagonista Marcelo (um professor especializado em tecnologia), o que vemos em tela é uma crítica arrebatadora ao jovem alienado, que, na escola, leu sobre a ditadura, a revolução francesa ou o descobrimento do Brasil, mas não se interessa pelos fatos, pensa que é página virada.
Através de seu texto surpreendente e ótima direção, Kleber invoca o pensar sobre a frágil, a apunhalada, a moribunda na UTI, mas ainda viva, democracia. A reflexão é a proposta principal.
O diretor traz o fantástico e o insano para a produção, de maneira incrível. Ao não ser classificado como um documentário – o que o obrigaria a representar apenas o formal, o histórico, – “O Agente Secreto” consegue inserir humor e ironia crítica em um texto que permanece com uma aparência séria.
E como não reforçar a fala de Tania Maria, atriz que é sensação da obra? A naturalidade de sua interpretação choca os espectadores. Não há criação que não se some à inspiração com vivência e criatividade com contemplação. A personagem Dona Sebastiana é tudo isso no caldeirão da veterana atriz, onde tudo é muito bem homogeneizado.
No papel de Fátima, Alice Carvalho tem uma participação mais do que especial, em um momento do longa que nos puxa violentamente para a realidade torta do nosso Brasil. Ali enxergamos o podre da ditadura, e o lixo político que a idolatra. É naquela cena que choramos de vergonha, que lamentamos “o quem cala consente”. Mas Alice nos chacoalha e nos dá voz.
Outra presença que dá peso ao filme é a de Maria Fernanda Cândido. Com atuação sempre primorosa, ela vive Elza, uma dessas personagens históricas que auxiliou a salvar vidas de presos políticos.
“O Agente Secreto”, assim como tantos antecessores que ajudaram a pavimentar esse caminho, vem para consagrar o mercado nacional, e dizer: “Sim, o Brasil também é a terra do cinema!”.
por Carlos Marroco – especial para A Toupeira
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Vitrine Filmes.


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