Agradar a audiência (seja através da plataforma que for) está cada vez mais difícil. Em se tratando de títulos com exorcismos como argumento central, esse encargo torna-se ainda mais complicado.
Se as produções recorrem a elementos já vistos anteriormente (à exaustão), são consideradas “cópias”. Se trazem algum frescor às histórias, através de textos ou recursos gráficos inéditos, ganham a antipatia de quem as caracteriza como “inapropriadas”.
Com isso em mente, a sensação é de que os cineastas encontraram uma brecha entre essas opiniões ácidas, para criar obras, contentando-se em agradar apenas uma fração do público. E, sinceramente? Creio ser um grande acerto de sua parte.
O mais novo longa desse subgênero do terror chega aos cinemas com sua trama baseada naquele que é considerado o caso americano de possessão / exorcismo documentado de maneira mais detalhada até hoje, mesmo passando-se quase 100 anos de sua execução.
Em “O Ritual” (The Ritual) conhecemos a jovem Emma Schmidt (também chamada, na vida real, pelos pseudônimos Anna Ecklund e Mari X, e aqui interpretada por Abigail Cowen), que vê na ação da Igreja Católica sua última esperança em livrar-se do mal que a aflige desde a adolescência.
No filme representada como uma jovem na casa dos 20 anos, enquanto o caso real aconteceu quando Emma tinha 46 – a protagonista, supostamente, estaria possuída por vários demônios (que vão de parentes falecidos a Judas Iscariotes), o que leva a uma rápida degradação de seu corpo físico e sua mente.
Ao ser levada a um convento de freiras franciscanas, que faz parte de uma paróquia em Earling, Iowa, Emma passa a ser o centro de múltiplos rituais de exorcismo, que visam impedir sua morte. Este será o cenário de atitudes perversas por parte da garota, que incluem agressões físicas e verbais contra a equipe de religiosos montada com o intuito de salvar sua alma.
À frente das sessões estão duas figuras com pouco em comum: o veterano Padre Capuchinho Theophilus Riesinger (Al Pacino), cuja crença parece inabalável, mesmo diante de um quadro que se agrava a cada nova intervenção. E Joseph Riesinger (Dan Stevens), jovem padre local que vê sua fé ser colocada à prova, quando ainda enfrenta o luto pela morte inesperada do irmão.
Escrito e dirigido por David Midell, o longa segue a cartilha esperada para algo desse tipo. Com a visível diferença de que, mais do que simplesmente tentar provocar sustos na plateia, o que se vê em tela é uma versão mais “realista” dos exorcismos praticados durante os 23 dias que Emma passou no convento.
Essa inclinação para a veracidade dos fatos transforma “O Ritual” em uma espécie de docudrama, que tem na crueza das cenas, seu maior êxito. Por outro lado, a opção por fazer as filmagens como se fossem resultado de um trabalho amador prejudica a experiência, em partes, já que a inconsistência de equilíbrio e o excesso de planos fechados – que se ampliam quase no mesmo instante – não conseguem atingir o objetivo, apenas causam um incômodo visual desnecessário.
Quanto ao roteiro de Midell, com uma base tão rica quanto a utilizada por ele – o livro do Padre Carl Vogl, “Begone Satan!”, lançado em 1935, no qual são compartilhadas as anotações feitas por Riesinger durante o processo de livramento de Emma – há uma riqueza de detalhes que confronta diretamente o que se pode considerar clichês do gênero.
A recepção a “O Ritual” vai depender da expectativa de cada espectador. Quem busca um terror genérico, com sustos fáceis, talvez se decepcione com o conteúdo oferecido. Mas, aqueles que anseiam por uma obra que pende para um lado mais verossímil, sugerindo debates sobre crença e fé, devem sair ao menos satisfeitos da sessão.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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