“Você pode ser gentil e forte ao mesmo tempo”
O ano era 1987 e Arnold Schwarzenegger já estava firmado como um dos maiores nomes dos filmes de ação. A adaptação de “O Sobrevivente” (The Running Man), livro escrito por Stephen King, cinco anos antes, em apenas 72 horas (segundo o próprio autor) viria a se tornar um dos títulos mais celebrados da época, embora fidelidade não seja um de seus méritos.
Chegamos a 2025 – justamente o ano retratado na obra literária – e a história de Ben Richards (agora interpretado por Glen Powell) ganha as telonas mais vez, com uma abordagem bem mais próxima da imaginada nas páginas de King (embora com mudanças bastante significativas) e que pode surpreender quem só conhece o longa oitentista.
O roteiro escrito por Michael Bacall e Edgar Wright (também à frente da direção) nos apresenta o protagonista tentando recuperar seu emprego em Co-Op City, após ser dispensado por denunciar o prejuízo causado aos operários que lidam diretamente com radiação.
Com a filha Cathy (Alyssa e Siena Benn) precisando de atendimento médico imediato e a pouca condição financeira que tem junto à sua esposa Sheila (Jayme Lawson), Ben toma uma medida drástica.
Ao se voluntariar como participante de algum reality show produzido pela única emissora local, Ride, ele se coloca em um perigo que julga ser controlado. Mas, sua natureza que beira a violência cega o coloca como um nome promissor para o programa mais letal – e, por consequência, de maior audiência: “The Running Man” (ou, como foi traduzido no Brasil, “O Sobrevivente”).
A atração tem como apresentador o carismático Bobby Thompson (Colman Domingo) que trata o sofrimento – e possíveis mortes – dos concorrentes com a mesma desenvoltura de alguém que administra uma inocente competição entre amigos. E o mais assustador é o quanto isso – ou algo que o valha – parece viável, diante do que acontece no mundo do entretenimento atual.
O trio formado por Ben, Jenni Laughlin (Katy O’Brian) e Tim Jansky (Martin Herlihy) deverá escapar da morte por trinta dias, a fim de receber uma quantia em dinheiro suficiente para proporcionar uma vida de luxo.
Mas, o principal obstáculo se dá pelo fato de não haver um cenário fixo ou definido para conter tal fuga: todas as ruas são válidas. Toda a população é apta a eliminar os jogadores, mediante uma recompensa da emissora.
Essa corrida torna-se ainda mais difícil, quando entram em ação os chamados Caçadores. Liderados pelo enigmático Evan McCone (Lee Pace), eles são a elite dos assassinos oficializados pela competição, para fazer da sobrevida dos candidatos um inferno – que seja interessante aos espectadores e rentável ao responsável pelo reality, Dan Killian (Josh Brolin).
O longa é frenético, do início ao fim. Exceto em alguns momentos quando o planejamento e a manutenção da fuga de Ben são estudados com mais afinco – graças às importantes participações de Molie Jernigan (William H. Macy), Bradley Throckmorton (Daniel Ezra) e
Elton Perrakis (Michael Cera), que enxergam na improvável vitória do protagonista a oportunidade de quebrar o sistema vigente – a ação é quase ininterrupta.
Por outro lado, algumas decisões criativas tornam a narrativa mais leve (por assim dizer) do que a do livro. A violência existe, mas embora Bem tenha o “pavio curto”, ela não parece gratuita. Suas motivações têm outras justificativas e o personagem acaba sendo visto como um símbolo de resistência e justiça, inspirando quem não se curva à soberania daqueles que se julgam melhores pela quantidade dígitos de suas finanças.
No fim das contas, a versão de 2025 de “O Sobrevivente” caminha por uma terceira via: não é tão diferente quanto o filme de 1987, nem tão dura quanto a obra original de King. Um equilíbrio que funciona, na maior parte do tempo.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paramount Pictures.


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