“O Inferno não é fogo. É gelo. Nada queima como o gelo.”
Há exatos 20 anos, Joe Hill dava vida aos personagens de “O Telefone Preto” no conto homônimo que originou o filme de 2022. O material transcrito em poucas páginas alcançou um sucesso muito maior do que o imaginado nas telas, o que significa que havia interesse do público em saber mais sobre o universo do temível “Sequestrador” (Ethan Hawke).
Com um final aparentemente definitivo para o personagem, coube ao diretor / roteirista Scott Derrickson e ao roteirista C. Robert Cargill a missão de retornarem a suas funções e estender a história de maneira a convencer os espectadores que ainda havia algo relevante a ser contado.
O resultado pode ser visto em “O Telefone Preto 2” (Black Phone 2), que aproveita a base de seu antecessor, enquanto acrescenta uma dose bem maior de elementos sobrenaturais. Sai o porão insalubre e claustrofóbico, entra o acampamento de inverno isolado por uma tempestade.
A narrativa, que também começa em Denver, tem um intervalo de quatro anos após os acontecimentos vistos anteriormente, ou seja, ocorre em 1982. Finn (Mason Thames) não consegue se desvencilhar dos traumas que seu período de cativeiro lhe causou, tornando-se alguém que recorre a subterfúgios para fugir das lembranças e das novas ligações telefônicas perturbadoras que seguem acontecendo – agora através de outros telefones.
Quando pesadelos com significados obscuros se tornam frequentes para Gwen (Madeleine McGraw), ela decide dar uma função mais ativa para seu dom especial, ao embarcar em uma jornada até Alpine Lake, um acampamento cristão no Colorado, onde jovens desapareceram em 1957.
A neve que cai em profusão faz com que apenas Gwen, Finn e seu amigo, Ernesto (Miguel Mora) cheguem a seu destino, enquanto os demais campistas têm sua viagem adiada. No ambiente quase desocupado, o trio deverá lidar com a desconfiança dos funcionários Kenneth (Graham Abbey) e Bárbara (Maev Beaty), enquanto trazem à tona dolorosas recordações para o supervisor do local, Armando (Demián Bichir).
Se no longa prévio, a questão do extraordinário se concentrava no telefone do porão – com a figura do Sequestrador parecendo execrável, mas crível – agora há uma grande mudança, com o antagonista retornando, em suas palavras, do Inferno – o que seria a única justificativa para sua volta, após ser morto por Finn, em 1978.
Com um campo de ação mais amplo e naturalmente impressionante (a ambientação composta por grossas camadas e gelo e neve), a presença mascarada torna-se ainda mais incômoda e perigosa. Mesmo que os jovens irmãos já a tenham enfrentado antes, agora sua “evolução” para uma criatura de fato sobrenatural, acrescenta novos elementos perigosos ao que já era difícil de combater.
Embora tenha o terror como óbvio gênero principal, a trama de “O Telefone Preto 2” converte-se em algo mais profundo, ao lidar com assuntos como transtorno de stress pós traumático, luto e aceitação. Tudo sem perder a identidade criada no primeiro filme, que fez do Sequestrador um personagem bastante popular entre os fãs do gênero.
Talvez algumas decisões pudessem ser diferentes – em especial no que diz respeito a explicações desnecessárias – mas no geral, é surpreendente perceber que um simples conto tem uma estrutura tão forte para o pode vir a ser uma franquia bem intrigante.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.


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