“Às vezes, a gente precisa criar coragem, mesmo que dê errado. Posso tentar mais uma vez?”
É fato que o avanço imparável da tecnologia trouxe muitas mudanças em todas as áreas. E as gerações que já nasceram diante de uma tela são, provavelmente, as mais impactadas pela existência que a modernidade tornou mais fácil.
Mas, houve um tempo – nem tão distante assim – em que era preciso interagir de verdade com as pessoas, quando não existiam streamings e redes sociais, e fazer um trabalho de escola implicava em passar horas diante de livros (ou cartolinas cheias de glitter, devidamente solicitadas no domingo à noite às nossas mães).
Dirigido por Maurilio Martin (que também faz a narração e é um dos roteiristas junto a Thiago Macêdo Correia), “O Último Episódio” faz uma viagem a essa época – vista como ultrapassada pelos jovens atuais, mas que é motivo de grande saudade para quem viveu de perto todas as experiências por ela proporcionadas.
A narrativa se passa no final de 1991, no Jardim Laguna – Periferia da cidade de Contagem / MG -, e nos apresenta Erik (Matheus Sampaio), Cristiane “Cristão” (Tatiane Costa) e Cassinho (Daniel Victor). Os amigos são estudantes do quase sempre complicado “Ginásio”, quando tudo parece ganhar uma dimensão bem maior, e algumas decisões (acertadas ou não) serão lembradas para o resto da vida.
Definir o número que será apresentado na Feira de Cultura (sim, daquele tipo de valia ponto na nota final costumava ser sinônimo de passar vergonha diante de alunos, professores e pais). Esse teria de ser o maior desafio do trio. Mas, quando surge o interesse de Erik pela “novata da 7ª B”, Sheila (Lara Silva), a tarefa vai para segundo plano.
Uma mentira aparentemente inofensiva ganha ares de importância suprema ao envolver um assunto que até hoje faz os fãs veteranos suspirarem: o final de “Caverna do Dragão”. Uma fita VHS importada contendo o episódio que encerraria a animação parece boa demais para ser verdade – e realmente é!
Sonhando com seu primeiro beijo, Erik promete uma exibição exclusiva para Sheila, sem levar em conta um pequeno detalhe: tal conteúdo nunca foi disponibilizado oficialmente (acredita-se que nem mesmo tenha sido feito).
Caberá aos três amigos a improvável missão de criar o material, a partir de ideias próprias e muita (muita) imaginação. É hora de produzir a conclusão da jornada dos corajosos jovens que ficaram presos em um Mundo Mágico, depois de uma visita rotineira a um Parque de Diversões.
Ao mesmo tempo, precisam lidar com outras situações familiares que os ajudarão a enxergar o mundo a sua volta de uma maneira bastante singular. Desafios que marcarão o período de transição entre a adolescência e a vida adulta.
O longa é uma maravilhosa homenagem aos anos 1980 e 1990, e me fez derramar muitas lágrimas ao identificar os detalhes tão bem representados em cena. É visível o excelente trabalho de pesquisa para reconstituir figurinos, expressões, cenários, o que transforma o filme em uma verdadeira Máquina do Tempo para quem teve a alegria de viver nessa época.
As festas de aniversário (com bolos imensos e fatias robustas que mereciam bis), o Walkman Amarelo, as fitas K7 com gravações de nossas músicas favoritas, as revistas com as traduções dos sucessos que tocavam no rádio, os (agora polêmicos) cigarrinhos de chocolate vendidos em Bancas de Jornal. Tantas recordações que me trouxeram sorrisos e aumentaram a minha certeza de que valeu a pena chegar até aqui.
Embora seja indicado a toda família, “O Último Episódio” deve conquistar com mais facilidade o público que tiver alguma identificação com o que é apresentado em tela. E, por isso mesmo, é incrível.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Embaúba Filmes.


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