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Crítica: “Orwell 2+2 = 5”

“Poder é a capacidade de causar dor e humilhação no outro.”

George Orwell, pseudônimo do escritor Eric Arthur Blair, escreveu múltiplas obras de ficção e não ficção, sendo seu último livro, também considerado uma obra prima, o romance de ficção científica “1984”, onde é descrito um Reino Unido que sucumbiu ao fascismo.

Neste romance, temos a fórmula matemática aberrante do título do documentário “Orwell 2+2 = 5”, mais precisamente na cena em que o protagonista é feito prisioneiro e está em processo de reabilitação, isto é, de lavagem cerebral onde um comandante fala que a soma vale o quanto o governo quiser que valha.

No documentário vemos a leitura dramática de cartas e trechos do diário de Orwell do seu processo de escrita de “1984”, o que ocorreu nos anos 1940 enquanto lutava com a tuberculose. Mais do que o processo de escrita do livro, são as descrições pessoais de seus últimos anos de vida, durante os quais encarava uma doença que era mortal em sua época.

Em paralelo a essas leituras, há sequências de imagens de filmes e notícias jornalísticas. Os longas são antigos em sua maioria, ilustrando eventos da vida do autor e trechos do livro. Já as passagens jornalísticas mostram governos do planeta inteiro realizando manipulações e atrocidades similares ao governo totalitário descrito na obra.

A ideia é mostrar tanto a história pessoal de Orwell, que conviveu com a ascensão dos governos fascistas da Segunda Guerra mundial, quanto os paralelos com o que acontece com diversos líderes atuais, especialmente no governo dos Estados Unidos.

Orwell não poupa o próprio país. Nascido na Índia, na época do controle britânico, e até virando soldado lá por um período limitado de tempo, deixa explícito como a Inglaterra – supostamente um país democrático – age como tirano mortal no estrangeiro com sua riqueza vinda da destruição e dominação de outras nações.

Entre os mecanismos de controle da população descritos em “1984”, o documentário enfatiza o controle da linguagem em volta de divinizar o governo presente, demonizar tudo e todos que apresentam divergências e facilitar a manipulação do passado. Apagar ou reescrever adversários, aliados e ações do governo. 2 + 2 = aquilo que o líder quiser, pois o líder é perfeito.

Prosseguindo, existe a discussão de como a existência de veículos de comunicação em massa – que atingem milhões de pessoas no planeta inteiro, sob o controle de poucos bilionários – criam mecanismos perfeitos para esse tipo de manipulação. Especialmente com a existência das redes sociais e com a IA generativa, permitindo a criação de vídeos ultra-realistas.

O escritor fala de maneira direta como a classe média branca (da qual fez parte) sempre almeja ostentar riqueza – o que significa controlar e humilhar outras etnias. Assim como quando resolveu lutar por igualdade social ao entrar em grupos comunistas – sob a perspectiva de uma elite europeia com uma idealização do trabalho – sem a real noção dos problemas que assolavam o povo. Assim, talvez sua maior frase seja “Como nos horrorizamos com as atrocidades que outros fazem com nossa nação, mas não com aquelas que nosso país faz com os outros e nem buscamos respaldo para saber qual lado está certo?”.

Claro que temos que ver tudo isso com cautela. Um documentário é um ponto de vista, a figura de Orwell é envolta de polêmicas complexas que são tocadas no filme sem se aprofundar.

Além disso, cada país tem séculos de cultura e história próprios, aos quais temos acesso limitado. Dividir tudo como tirania ou democracia, preto no branco, é esquecer a existência de uma gradação enorme de possibilidades, assim como de particularidades regionais e temporais.

Ainda assim vejo “Orwell 2+2 = 5” como um documentário importante, em parte biográfico, em parte de reflexão sobre a ascensão atual do fascismo pelo mundo, repetindo a história de meio século atrás.

Recomendado para fãs de Orwell, assim como quem deseja uma visão ampla da crise política global que enfrentamos no momento. Lembrando que todo documentário só mostra um ponto de vista, é dever do espectador refletir, pesquisar e questionar, como a própria obra de Orwell nos propõe.

por Luiz Cecanecchia – especial para A Toupeira

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Alpha Filmes.

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