Crítica: “Os Delinquentes”

Filme bastante atípico para o que conhecemos da filmografia argentina. Por não ter sido realizado pelas empresas habituais, dirigido por alguns dos nomes mais famosos e não apresentar um elenco dos mais célebres.

Principalmente, por não contar com a presença de Ricardo Darín, ator que se tornou um emblema do cinema argentino que chegou às telas na década dos 1970 e hoje tem quase uma centena de trabalhos, muitos conhecidos no Brasil. Por isso, muitos espectadores têm a impressão de que um título do país vizinho não pode existir sem ele.

Por outra parte, esta é uma realização policial, com elementos românticos e dramáticos. Nesse sentido, sim, há muitas obras que são deste gênero na cinematografia dessa origem. Apenas alguns exemplos: dos últimos anos, “Nove Rainhas” e “Plata Quemada”, e de épocas anteriores, as magníficas “Tempo de Revancha” e “Últimos Dias da Vítima”. Isto sem mergulhar nas etapas mais remotas.

Nesta produção que chega aos cinemas brasileiros, o diretor e co-roteirista é Rodrigo Moreno, que conta com seis longa-metragens no currículo, mas sem eco no público de massa ou reconhecimento internacional. Da mesma forma, os técnicos e, como dizíamos, o elenco, se apresentam sem maiores antecedentes cinematográficos. Contudo, estes fatores contribuem para a construção de uma excelente trama, revelando expressivo talento na equipe.

“Os Delinquentes” (Los Delincuentes / The Delinquents) tem a história de um fato delinquencial bastante engenhoso, na qual o protagonista, funcionário bancário, está cansado de ter uma vida monótona em Buenos Aires, uma cidade que lhe resulta bastante opressora e ter que se desempenhar em  um ambiente de trabalho muito tenso.

Com um futuro pouco promissor, decide arriscar-se em um plano atrevido e original. Claro que o tal plano não vai ser simples de ser levado adiante. Necessita de um cúmplice que participe ativa e cuidadosamente de uma tarefa perigosa: cuidar durante uns três anos de um dinheiro vivo que ele subtraiu do banco.

Entretanto, falar de delinquência na Argentina atual é moeda corrente, ao ponto de se tornar um fato corriqueiro e praticado em todos os níveis, principalmente no público. Inúmeros exemplos poderiam ser mencionados, sendo bem conhecidos não apenas com origem nessas esferas públicas, mas como parte de um modo de vida, que pratica, concorda ou admira a delinquência. Portanto, não surpreende que, nesse contexto social e cultural, apareça um título como “Os Delinquentes”, abordando esta temática.

Só que, nesta oportunidade, a ação tem traços decididamente diferentes do já visto ou o que poderia ser imaginado. Em muitos sentidos, Moreno trilha uma senda inovadora. Chama a atenção não apenas o assunto central, mas a maneira como vai montando e desenrolando a trama. Toma-se seu tempo, desde o início, para apresentar diversas características: a atmosfera de Buenos Aires, o ambiente bancário e a ação dos próprios personagens e seus vínculos.

Tudo isso lhe demanda tempo e descreve sem urgências e sem verbalizações redundantes o que vai acontecendo, assim como as motivações e as prováveis consequências. É muito preciso, por exemplo, ao mostrar os cafés, edifícios típicos, apartamentos portenhos, tendo o tango como música de fundo. Também, quando vai para o interior, Moreno se atenta a detalhes que descrevem o modo de vida local, isto é, mais sossegado, com menos tensões e suspeitas entre as pessoas e maior proximidade da natureza.

Nessa exatidão, há um porém: várias situações mereceriam um encurtamento narrativo. Falta uma edição que, sem perder a intenção original, agilize o ritmo, até porque o filme conta com uma duração de 3 horas e 9 minutos. Por outra parte, não deixam de aparecer vários momentos de humor, às vezes sutilmente. E há uma série de elementos que fazem imaginar e pensar sobre o papel social e pessoal que tem o dinheiro – especialmente o dinheiro vivo.

“Os Delinquentes” está dividido em duas partes. Uma destinada ao delito dentro daquele local e ambiente já mencionados e a outra, embora continuação da anterior, ocupando-se dos vínculos pessoais de Morán (o protagonista) e seu cúmplice, Román – note-se que os dois nomes estão formados pelas mesmas letras, apenas distribuídas em modo diferente.

É bem provável que seja para mostrar a proximidade de ambos, ainda sendo dois indivíduos algo diferentes. Daniel Elías e Esteban Bigliardi dão vida a esses personagens, aos quais se somará Margarita Molfino. Sem esquecer das boas presenças de German De Silva (em dois papéis) e Laura Paredes (como a investigadora).

Aquela divisão da narrativa leva a flashbacks e reviravoltas. E, sobretudo, produz simetrias, algumas evidentes e outras mais sutis. Isso faz com que um espectador atento e com desejos de aprofundar a análise da estrutura do filme perceba algumas e, também, precise assistir mais de uma vez para captar outras.

Além disso, parece haver uma terceira parte, não dita no relato. É aquela construída pelo espectador tentando entender o que acontece nos trechos finais, onde surgem diversas possibilidades do que teria sucedido. Se for assim, estamos ante uma criação muito inteligente.

No que se refere aos assuntos técnicos, o som direto deixa algo a desejar (mas isso pode ser percebido só por aqueles que conhecem o idioma espanhol, porque as legendas escondem tais defeitos). Bom trabalho do iluminador Alejo Maglio e, em algumas cenas, dos editores Akerman e Ferrari – compensando o antes dito sobre o esticamento de outras cenas.

A música merece ser sublinhada, incluso em títulos folclóricos como “Soy de Salta y hago falta”, ou alguns da chilena Violeta Parra. E em especial porque o tema central “Adónde está la libertad”, do roqueiro Pappo, resulta extremamente adequado ao filme.

Em síntese: bom título argentino, indicado por essa cinematografia para o próximo Oscar de Filme Internacional.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Vitrine Filmes.

Filed in: Cinema

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