“Esta é a minha vida e eu tenho que lutar por ela, quer você ache que vale a pena ou não.”
Ouvida principalmente pelos menos afortunados, a frase que afirma que “dinheiro não traz felicidade” pode até ter uma boa intenção, mas, no geral, surge como algo dito por quem nunca terá que comprovar sua veracidade.
Nesse momento, milhares de pessoas aproveitam a vida em residências luxuosas, fazem refeições satisfatórias e não têm uma ideia exata de seu poderio financeiro. Enquanto outro grupo – infinitamente mais numeroso – batalha pelo mínimo de dignidade, enquanto perdem preciosas horas em transportes públicos lotados que levarão a um serviço que remunera mal.
E se houvesse uma maneira – mesmo que temporária desses indivíduos trocarem de lugar? O quanto uma experiência tão drástica contribuiria com seu crescimento emocional, para a percepção de que tudo, a seu modo, pode valer a pena? Em uma escala muito menor, é a proposta de “Quando o Céu se engana” (Good Fortune).
A narrativa escrita por Aziz Ansari (que ainda assume a direção do longa), nos apresenta Arj Ibrahim (interpretado pelo próprio diretor), cujo sonho de tornar-se editor de documentários é esmagado pela dura realidade de quem precisa, muitas vezes, trabalhar com algo que não ama, a fim de sobreviver.
Quando consegue uma vaga como “faz-tudo” em um aplicativo que oferece serviços variados, Arj é recrutado para organizar a garagem de Jeff (Seth Rogen), milionário da tecnologia que é a personificação de outra famosa afirmação: “Dinheiro chama dinheiro”.
Duas histórias tão distintas parecem fadadas a se repetir dia após dia, sem que haja nenhuma mudança significativa. A menos que aconteça um milagre. E é o que acontece (ou pelo menos algo próximo a isso), quando entra em ação o bem-intencionado Gabriel (Keanu Reeves).
O anjo responsável por evitar acidentes de trânsito causados pela desatenção dos motoristas que insistem em usar celulares enquanto dirigem, quer mostrar a Arj que nem todos os problemas se resolvem com uma situação financeira confortável (verdade, mas que, dependendo do ponto de vista, soa como hipocrisia pura).
O que a entidade celestial não esperava era que suas ações teriam tantas consequências. Punido pela “Gerente de Anjos”, Martha (Sandra Oh), Gabriel terá que enfrentar os desafios de ser humano, enquanto procura um jeito de desfazer sua obra e realocar os protagonistas em suas respectivas vidas (com sorte, trazendo em suas consciências algum tipo de ensinamento edificante).
É complicado torcer pelo êxito do anjo, quando sabemos o quão sacrificada é a rotina de Arj, que por mais que se empenhe, batalhe, não consegue se estabelecer com mais segurança, tendo que viver no limite, dormindo no carro e submetendo-se ao capricho de quem contrata seus serviços, mas que o enxerga apenas como um subalterno que não merece progredir.
Por outro lado, quando Jeff se vê longe das facilidades que sua fortuna oferece, fica claro que talvez ele não seja tão capacitado assim. É a típica figura vista com simpatia apenas por seus pares, cuja maior parte do sucesso não é merecida.
A comédia tem bons momentos – a maioria envolvendo as descobertas (boas ou más) de Gabriel em seu período como simples mortal. Coisas triviais ganham outra importância quando observadas por uma ótica descomplicada, com uma inocência quase infantil. Daquele jeito bonito, que acabamos perdendo, conforme os anos endurecem nossos corações.
Destaque para a excelente trilha sonora que deve agradar aos fãs de dance music dos anos de 1980 e 1990, incluindo nomes como Iner City (“Good Life”), Deee-Lite (“Groove is in the Heart”), Sabrina (“Boys”) e Real Life (“Send me na Angel”).
“Quando o Céu se engana” diverte e faz refletir. E, em tempos como o nosso, essa é uma ótima combinação, no final das contas.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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