“Estou no meio da neve, sendo perseguido por gente monstro doida.”
Embora eu seja grande fã do gênero terror em quase todas as ramificações possíveis, a verdade é que meu conhecimento sobre a franquia “Resident Evil” restringe-se a identificar cosplays em eventos e a ter assistido a apenas um dos seis títulos protagonizados por Mila Jovovich.
Por não ter nenhum tipo de apego ao material original, fui tranquila ao cinema, sem saber o que esperar do novo capítulo que chega como uma espécie de reboot da saga, com uma ideia, no mínimo, ousada: contar uma história nova, sem se basear nas vistas nos games e adoradas por uma legião de fãs.
Quem aceitou o desafio foi Zach Cregger (responsável pelo roteiro ao lado de Shay Hatten e pela direção), que oferece uma premissa empolgante o suficiente para ser reconhecida como uma adaptação de jogo, e funciona perfeitamente quando vista apenas sob a ótica de uma produção cinematográfica.
A trama de “Resident Evil” (Resident Evil) nos apresenta Bryan (Austin Abrams), um jovem rapaz que trabalha como entregador de órgãos para transplantes e materiais biológicos, que acaba de ter a notícia – aparentemente inesperada – de que será pai. Ao aceitar fazer uma entrega de última hora, cuja remuneração é o dobro do que costuma receber, ele dá início ao que seria a pior (e mais improvável) noite de sua vida.
A maleta médica precisa ser levada com urgência ao Hospital Geral localizado na fictícia cidade americana de Raccoon City. A informação que ele não tem a princípio é que o prédio abriga o laboratório da Umbrella Corporation, responsável pela criação descontrolada de criaturas mutantes, a partir da infecção de moradores dos arredores.
Imaginando que o maior risco de sua missão é dirigir por uma estrada coberta de neve (sem ter um automóvel adequado para tal), Bryan se aproxima do espectador comum, que, assim como ele, não possui treinamento prévio, nem saberia como agir diante de uma epidemia zumbi (ou qualquer coisa que se aproxime disso).
As desventuras do protagonista começam com o atropelamento de uma misteriosa mulher que surge do nada. Uma sucessão de coisas estranhas passa a acontecer, indicando que algo de errado acometeu a cidade. Descobrir o quê é de fato, e principalmente como sobreviver todas as implicações tal catástrofe, a tempo de fazer a entrega para a qual foi designado será a nada simples tarefa de Bryan.
Assim como em um bom jogo e/ou filme de sobrevivência, há elementos e ações reconhecíveis até por quem não é íntimo da franquia. A progressão da capacidade de estrago das armas, a inexplicável quantidade de cadeados (itens igualmente pouco festejados em Escapes Rooms), a execução de um ato que culmina em arrependimento imediato.
Bryan é o “jogador novato”, o que não tem a noção precisa dos comandos que deve executar, a fim escapar com sucesso dos perigos crescentes que ameaçam não apenas seu encargo, como também sua vida. E é isso que torna o longa tão bom, tão surpreendente.
Porque não há nenhuma segurança garantida, tudo pode acontecer (e acredite: há muito se desenrolando em tela). A qualidade é tanta que mesmo os jumpscares são inseridos de maneira competente, pegando de surpresa até os espectadores acostumados com o recurso.
A fotografia de Dariusz Wolski é maravilhosa. Determinadas sequências são a representação perfeita do que se espera ver durante uma partida de videogame, com enquadramentos que levam o público para dentro da ação, seja no campo de visão do próprio Bryan ou de alguém que está bem próximo a ele.
Cabe ainda ressaltar o ótimo trabalho da equipe de maquiagem que deu vida a criaturas que transitam entre o estranho, o monstruoso e o grotesco. As sequências passadas no esgoto, no elevador e no berçário são do tipo que nos impulsiona a ver a obra mais de uma vez, só para descobrir novos detalhes.
“Residente Evil” consegue o raro feito de ser assustador e divertido, sem que uma habilidade anule a outra. Se em um momento estamos rindo de algo, no próximo é provável que a aflição diante do desconhecido retome seu lugar. E talvez essa seja a melhor receita para gerar interesse nesse rico e já estabelecido universo, a partir de uma nova e extremamente bem-sucedida perspectiva.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sony Pictures.


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