A ânsia em se criar um futuro melhor para entes queridos pode levar as pessoas a cometerem desesperados. Mas até que ponto é possível julgar aqueles que buscam oferecer aos seus descendentes, uma vida melhor do que a deles próprios?
A trama de “Rosario” tem início em 1999, no bairro nova-iorquino do Brooklin, e mostra a família mexicana Fuentes reunida para celebrar a Primeira Comunhão da garota que dá nome ao filme – nesse momento, vivida por Emilia Fraucher.
Embora todos se mostrem felizes por estarem juntos, existe algo de estranho nas entrelinhas do que se vê e diz, como se uma espécie de mal se fizesse presente nesse momento de gratidão e fé. Tal impressão torna-se mais forte com o nítido desconforto que a avó de Rosario, Griselda (Constanza Gutierrez), parece sentir, tornando-se quase uma figura à parte e totalmente deslocada daquele momento familiar.
Com um grande salto no tempo, a narrativa escrita por Alan Trezza chega aos dias atuais e mostra como Rosario (agora interpretada por Emeraude Toubia) obteve grande êxito profissional, trabalhando como corretora de Wall Street. Mas, sua rotina confortável e luxuosa é quebrada com a notícia do falecimento de sua avó, quando é requisitada a ir imediatamente para o apartamento onde a idosa morava, a fim de cuidar do corpo, até a chegada da ambulância que fará a remoção do cadáver.
Carregando memórias desfavoráveis – ampliadas após a separação de seus pais, Oscar (José Zuñiga) e Elena (Diana Lein) – ela encara a inesperada missão de chegar ao decadente prédio, enquanto uma terrível nevasca acomete Manhattan.
O interior do apartamento passará a ser, quase que totalmente, o único claustrofóbico cenário do longa e esse talvez seja o seu maior acerto, uma vez que o ambiente insalubre (com elementos que vão de vermes em comidas decompostas a uma iluminação irregular, causada pela ferocidade da tempestade) causa um incômodo constante nos espectadores.
Acrescente ao grotesco quadro, a aparição de Joe (David Dastmalchian), um misterioso vizinho de saúde frágil e intenções desconhecidas, que não se mostra favorável à presença da protagonista no local.
Quanto mais tempo Rosario passa no edifício, mais parece absorvida por ele – tanto física, quanto emocionalmente. O porte elegante e austero que tem ao chegar vai aos poucos dando espaço a uma aura de desespero, conforme descobre segredos de família que nem imaginava terem tanto impacto em sua vida.
Tais revelações giram, em sua maioria, em torno da doutrina de sua falecida avó, adepta do Palo Mayombe, culto religioso afro-cubano através do qual são veneram-se e invocam-se espíritos antepassados. A prática – provavelmente desconhecida do grande público – envolve rituais complexos que deverão ser decifrados pela jovem, visando que ela sobreviva a todos os infortúnios que passam a se abater sobre ela, após a morte de Griselda.
Embora no geral seja irregular, “Rosario” – estreia de Felipe Vargas na direção – merece destaque pela opção por efeitos práticos (o que sempre faz diferença em obras de qualquer gênero, mas, especialmente nas de terror) e por sair do lugar comum e contar uma história pautada em elementos vistos com pouca frequência nas telonas.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Imagem Filmes


comment closed