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Crítica: “Sr. Blake ao seu dispor”

“Não devemos nunca perder a esperança, mesmo que nos falte”.

Há um grande mérito em “Sr. Blake ao seu dispor” (Complétement Cramé! / Well Done): o fato de ter sido dirigido pelo autor do livro original na qual se baseia, Gilles Legarsinier, que também assina o roteiro da adaptação cinematográfica, junto a Christel Henon.

Quando o criador da obra toma a frente para levá-la a outras plataformas (nesse caso, das páginas para as telas), normalmente existe um cuidado a mais, a fim de que o conteúdo ganhe os contornos adequados, mas sem perder a verdadeira essência.

Embora eu não tivesse conhecimento do livro (lançado em 2012), antes de assistir ao filme, ao término da exibição senti que há um lugar especial para ele em minha (infindável) lista de leituras pretendidas. Pelo simples fato de que seu protagonista – ao contrário da maioria – trata com delicadeza, respeito e sabedoria, um assunto nem sempre fácil: o luto e todas as etapas o sucedem.

A trama nos apresenta Andrew Blake (John Malkovich), influente empresário britânico cuja vida perde o sentido após a morte de sua esposa, Diane, há quatro meses. A falta de sua companheira, com quem escreveu quatro décadas de história mostra-se um impeditivo para seguir adiante.

Com a intenção de retomar memórias antigas e felizes, Blake faz uma viagem à França, para visitar o local onde conheceu o seu único amor, tantos anos atrás. Mas, o que era para ser apenas uma viagem nostálgica, logo se transforma em uma inesperada missão, quando ele é confundido com um candidato a uma vaga de mordomo.

O suntuoso castelo agora tem como proprietária, Madame Nathalie Beauvillier (Fanny Ardant) que, distante de seus dias mais gloriosos – no que diz respeito a finanças – se vê diante da triste possibilidade de se desfazer do imóvel. Enquanto busca por uma solução milagrosa e imediata, a viúva de poucas palavras (mas que demonstra manter a sempre importante centelha de esperança dentro de si), conta com figuras prestativas ao seu redor.

A competente governanta / cozinheira Odile (Émilie Dequenne), que tem como obstáculo interno, sua baixa autoestima; a jovem empregada, Manon (Eugénie Anselin), cuja gravidez inesperada a faz duvidar sobre a real chance de seu relacionamento dar certo; e o vizinho / “faz tudo”, Philippe Magnier (Philippe Bas), que abraça a solidão e o pouco convívio social, mas que, no fundo, tem muito mais a oferecer.

Uma vez estabelecidas as narrativas individuais, o caminho óbvio é o que coloca Blake como uma espécie de catalisador. O personagem ainda sofre com sua dura perda (assim como pela distância de sua filha Sarah (Stephanie Clemente Jodar), com quem não mantém contato regular), mas ao tentar ser útil aos que o cercam nessa improvável jornada, ele percebe que, de algum jeito – mesmo que tortuoso e incompleto – a vida há de continuar.

O longa é encantador. Não há nenhuma catarse ou uma redenção que ponha vidas de cabeça para baixo. O que existe são detalhes que tornam a caminhada menos penosa, pequenos lampejos de confiança que, quando colocados em prática, podem mudar a percepção de que o mundo é não mais do que um lugar hostil e sem compaixão.

Um trecho da maravilhosa “For once in my life”, aqui, na voz de Michael Bublé (ouvida logo no início da produção), explica “Sr. Blake ao seu dispor” em poucas palavras: “Pela primeira vez na minha vida, não vou deixar a tristeza me machucar”.

É o tipo de filme para deixar o espectador mais leve, para nos fazer questionar sobre o valor das coisas, das pessoas e do que fazemos com o tempo que temos para descobri-lo.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Mares Filmes.

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