O quão importante é nossa origem em se tratando de moldar nosso caráter? E como nossas atitudes podem nos transformar em indivíduos melhores?
Em 2005, em “Batman Begins”, Bruce Wayne (Christian Bale) afirma: “Não é quem eu sou por dentro, mas o que faço que me define”. Duas décadas depois, Jonathan Kent (Pruitt Taylor Vince) volta a nos emocionar ao dizer: “Suas escolhas. Suas ações. São o que fazem de você quem você é”.
É com essa ideia em mente, sobre o impacto das decisões que tomamos durante a vida, que “Superman” chega aos cinemas, trazendo uma bem-vinda (e necessária) mensagem de esperança em meio ao caos em que a sociedade se encontra – seja na ficção ou no mundo real.
Particularmente, eu gosto da ideia de haver representações de figuras quase “divinas”, que colocam suas habilidades a serviço de um bem maior. Os adjetivos “Super”, “Fantástico”, “Incrível”, “Poderoso” me parecem encorajadores, como se realmente pudéssemos contar com alguém especial, sem que isso nos faça sentir inferiores.
O conceito de um “Super Homem” não é o pilar principal do novo trabalho escrito e dirigido por James Gunn, que ganha as telas com a missão de iniciar uma nova era nas produções cinematográficas baseadas em quadrinhos da DC Comics. Dessa vez, o propósito é aproximar o “último kryptoniano” dos espectadores, destacando os pontos que constituem sua humanidade.
Embora o personagem seja facilmente identificado por sua ética e bondade quase inabaláveis (o que, nas HQ’s, lhe rendeu o irônico apelido de “Escoteiro”), colocá-lo em um patamar mais nivelado aos indivíduos “comuns” foi um grande risco assumido pelo roteiro. A boa notícia é que essa aposta deu certo.
A trama – que já começa sob os incomparáveis acordes do tradicional tema criado por John Williams (com um novo e competente arranjo de David Fleming e John Murphy) – faz um rápido resumo para situar o público.
Sem ter sua história de origem – da explosão de Krypton, seu planeta natal, à chegada à Terra (mais especificamente no estado americano do Kansas) – contada, Clark Kent (David David Corenswet, honrando o legado do paladino) já atua como Superman há três anos, período em que ganhou a confiança das pessoas ao redor do mundo.
Mas, sua avaliação positiva sofre um revés após o herói intervir em uma guerra travada pelas nações fictícias de Borávia e Jahanpur. O que ele faz a fim de impedir a morte de inocentes acaba se tornando um conflito político de proporções inesperadas, e causa algo inimaginável até aquele momento: sua primeira derrota.
Se o temível “Martelo de Borávia” mostra-se um oponente físico à altura, a verdade é que – como esperado – o maior antagonista do longa é Lex Luthor (Nicholas Hoult em interpretação extraordinária). Não há ameaça maior do que alguém que não se esconde atrás de desculpas para justificar um mau comportamento. O mega empresário é movido por uma inveja que o consome a olhos vistos e faz de sua essência algo naturalmente execrável.
É com essa perigosa ânsia desmedida de poder que Superman terá que lidar, enquanto vê sua reputação ser posta em dúvida, através de fake news e da proliferação de comentários maldosos em redes sociais (assunto desenvolvido com inteligência na história).
Há (muitos) outros personagens em cena. Entre eles, a de maior destaque, obviamente, é Lois Lane (Rachel Brosnahan), que equilibra com graça a posição de namorada do nerd/herói e a de jornalista que reconhece a seriedade com que um trabalho jornalístico deve ser feito.
Já pelo lado dos meta-humanos, quem brilha é a “Gangue da Justiça” composta pelo trio formado por Sr. Incrível (Edi Gathegi), Guy Gardner / Lanterna Verde (Nathan Fillion) e Mulher-Gavião (Isabela Merced). Também cabe enaltecer o quão bacana ficou a versão do Metamorfo (Anthony Carrigan), que tem tudo para conquistar um espaço maior futuramente.
Contudo, a melhor interação do Homem de Aço é com seu companheiro canino, Krypto. O adorável cãozinho deverá conquistar o coração da plateia, sem dificuldades, graças ao inerente encanto que só os animais possuem. Sua presença me fez sorrir, chorar e vibrar na mesma proporção e eu quero muito vê-lo em outras produções.
Há decisões corajosas e surpreendentes e, por isso, as poucas escolhas contestáveis no decorrer da narrativa não são capazes de macular a obra. “Superman” é daquele tipo de filme que faz bem a quem assiste, mesmo que nem todos se deem conta disso em um primeiro momento. A sensação de que, apesar de tudo, ainda existem possibilidades de melhoria, é reconfortante.
Assim como as palavras imortalizadas na HQ “Olho por Olho?” (What’s so Funny about Truth, Justice & the American Way?): ‘Sonhos nos salvam. Sonhos nos levantam e nos transformam. E pela minha alma, eu juro… até que meu sonho de um mundo onde dignidade, honra e justiça se tornem a realidade que todos nós compartilhamos, eu nunca vou parar de lutar. Nunca”.
Olhe para cima (e para as telas) e voe para os cinemas.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.


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