A sátira pode ser compreendida como uma ferramenta artística que exagera comportamentos humanos para evidenciar absurdos, abusos ou falhas coletivas. Em vez de retratar a realidade com fidelidade, ela amplifica gestos e traços até o limite, assim, potencializando sua força como crítica. “Uma Mulher Sem Filtro” segue essa lógica, evitando chegar a níveis extremos de obras como “Idiocracia” (2006, Mike Judge).
O filme se apoia em “tipos sociais” reconhecíveis: a “mãe de pet”, o “esquerdomacho”, o “chefe machista”, a “influencer superficial, mas mais inteligente do que parece”, vivida por uma Camila Queiroz, ainda marcada por “Beleza Fatal” (2025, Rafael Montes), entre outros. Essas figuras, comuns em nosso cotidiano, aqui ganham destaque e análise, conduzidas pelo olhar crítico e cômico de Arthur Fontes.
A trama acompanha Bia (Fabíula Nascimento), publicitária estressada de uma revista feminista, que constantemente “engole sapos”, seja do marido, do enteado, da vizinha, do chefe e até de estranhos. Tudo muda quando, após uma sessão com a enigmática “Deusa Xana” (Polly Marinho), ela perde o medo de se expressar e liberta tudo o que estava engasgado, transformando radicalmente sua vida.
Diferente de narrativas como “Se Eu Fosse Você” (2006, Daniel Filho) ou “O Mentiroso” (1997, Tom Shadyac), não há aqui um “retorno à normalidade” após o aprendizado. Não é uma maldição temporária, mas uma dádiva definitiva, um símbolo de reconexão com o feminino em um mundo patriarcal opressor.
A jornada de Bia é essencialmente interna. Ela própria é o seu maior obstáculo, até que ela decide, de forma talvez rápida demais para o cinema tradicional, romper essa barreira. Essa virada, ainda que simples, é eficaz dentro da proposta. Bia se torna mais humana: chora, se importa e passa a lutar por si, e por consequência, transforma seu entorno e das pessoas que convive diariamente, ou anteriormente julgava, como a colega de trabalho.
A mensagem não é nem um pouco sutil, por consequência, a partir segunda metade da produção, o tom militante excessivo começa a cansar. A insistência nos temas de libertação e empoderamento feminino dentro de uma sociedade que a rebaixa, impede que o filme atinja todo o seu potencial, mantendo-o na zona do “bom entretenimento”, contando a história de uma mulher que conquista liberdade ao cortar laços que a aprisionam, especialmente com homens que a subestimam ou exploram, longe de reflexões mais complexas sobre gênero que tivemos em produções como “Eu não sou um Homem Fácil” (2018, Éléonore Pourriat).
Os personagens masculinos centrais representam três arquétipos: o chefe machista, o marido preguiçoso e o amigo pseudo-progressista. Ao tratá-los sempre como vilões, a produção reforça uma dicotomia que empobrece a narrativa, evitando nuances que poderiam gerar debates mais ricos. Ainda assim, o tom satírico atenua esse maniqueísmo,afinal, não se trata de retratar a realidade com exatidão, mas de exagerá-la para causar constrangimento, leves risos, memórias e reflexões da parte da audiência, algo aumentado pela escolha de Arthur Fontes em colocara enquadramentos próximos, muitas vezes colando a câmera ao rosto de Fabíula Nascimento, aumentando a sensação de intimidade com a protagonista.
Ao final, “Uma Mulher Sem Filtro” cumpre seu papel: diverte, provoca e entrega um manifesto sobre liberdade e auto aceitação feminina. Contudo, suas escolhas simplistas e dicotômicas limitam o alcance da obra, que poderia ir além do bom entretenimento para se tornar um retrato mais complexo das complexas relações humanas que vemos em nosso dia a dia.
por André Sanchez – especial para A Toupeira
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela H20 Films.


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