Do Fundo da Toca: “O Exorcista” ainda impacta nos tempos atuais?

Essa pergunta é perfeitamente cabível para qualquer produção, após mais de 20 anos de seu lançamento. Cada época tem suas características culturais, tecnológicas e econômicas, com os habitantes do seu tempo recebendo uma obra de acordo com o contexto em que vivem. Tanto que existem materiais que são fracassos quando são lançados, mas viram cult décadas depois ou em países específicos.

No caso de “O Exorcista” (The Exorcist) estamos falando dos anos 1970, com os resquícios da ficção cientifica e da releitura mais sangrenta de monstros clássicos.

O filme – que completa 40 anos de sua estreia nos cinemas – chega com uma proposta diferente, de um demônio mais próximo do imaginário católico – muitas produções norte-americanas e inglesas são coordenadas por outras vertentes do cristianismo ou por judeus.

Sem “O Exorcista”, não teríamos o “Invocaverso”, que brinca justamente com esse imaginário. Lembrando que o “brincar”, no caso, não se trata de insultar crenças, mas de pegar certos elementos e discuti-los em termos estéticos e reflexivos, em uma obra de arte.

No longa dirigido por William Friedkin (falecido recentemente, em 07 de agosto), Chris MacNeil (Ellen Burstyn) é uma atriz vive o auge de sua carreira e fortuna, enquanto cria sua filha Regan (Linda Blair) como mãe solteira. Porém, acontecimentos cada vez mais bizarros com a criança a levam ao limite de procurar um padre, para eliminar a possível presença maligna em sua casa.

Padre Karras (Jason Miller) e Chris são quase o oposto um do outro. Ela é rica, bem resolvida com a família, famosa. Já ele encontra-se nitidamente na famosa crise dos 40 anos, celibatário, reservado, com problemas familiares.

A versão expandida detalha muito mais o universo do padre e as críticas pesadas que recebe da família, além daquelas que faz intimamente contra si mesmo, alguém que vive de forma quase mecânica. Ele não perdeu simplesmente a fé em Deus, mas em si mesmo.

Analisando esse binômio, vemos que o filme é muito mais que uma coletânea de cenas macabras de uma pessoa possuída.

Temos o medo da mãe de perder sua filha, mesmo com todos os recursos financeiros que acumulou por anos. Um padre que teme ter fracassado como filho – seja de sua mãe, ou mesmo da lgreja. Uma filha com medo de ser atacada por algo que desconhece.  Em todos os casos, vemos o temor de perder o controle da própria vida em múltiplos graus e de várias formas. E que são medos reais.

Se hoje ainda temos várias doenças desconhecidas, que dinheiro nenhum pode controlar, imagine com os recursos limitados dos anos 1970? E a crise dos 40 anos, que afeta pessoas de todo planeta, é uma preocupação verdadeira. Será que fracassamos com nossos amigos, familiares, trabalho, com a própria sociedade, com nós mesmos?

O Padre Merrin (Max von Sydow), exorcista que é enviado para ajudar o sacerdote, representa justamente o oposto dele: alguém bem-sucedido, de renome internacional, que faz suas próprias pesquisas de campo.

Os efeitos de atuação do demônio continuam muito bem feitos, mas, acima de tudo, “O Exorcista” continua sendo uma história detalhada, atual e forte sobre o medo dos fracassos e da perda do controle sobre a própria vida.

por Luiz Cecanecchia – especial para A Toupeira

Filed in: Cinema

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