Crítica: A casa que Jack construiu”

Aviso: “A casa que Jack construiu” retrata temas sensíveis, em particular violência contra mulheres, e é altamente gráfico. Se esse tipo de conteúdo causa desconforto ou incômodo, ele não é para você. A crítica por tratar dos temas e cenas presentes no filme também não é recomendada.

The house that Jack built é uma parlenda britânica – tipo de verso infantil que é usado para estimular a memória da criança – aos moldes da lusófona “A velha a fiar”, na qual vão se acumulando personagens até quantidades absurdas. É também o nome do novo filme de Lars Von Trier – que no Brasil ganhou a tradução literal de “A casa que Jack construiu”.

Jack (Matt Dillon) é um engenheiro que procura construir a casa perfeita. Porém também é um psicopata, mas mais do que isso, é um serial killer. Suas vítimas, em geral mulheres, que variam de idosas e jovens depressivas, a mães solteiras, se acumulam como os personagens da parlenda que compartilha o título com o longa, graças a um misto de sorte, habilidade, e indiferença social. Jack, por sua vez, é o próprio narrador de seus feitos, e conta a Vírgilio (Bruno Ganz), seu interlocutor, os cinco momentos mais marcantes de seu frenesi assassino.

Mais uma vez Lars von Trier nos mostra seu grande conhecimento cultural: todo o roteiro é assinado pelo diretor/roteirista, e conta com pesadas referências artísticas, sociais e históricas, e nenhuma delas é rasa. Um exemplo está em um dos próprios personagens da história, o Virgílio, e suas conversas se dão como uma Divina Comédia invertida.

Porém o domínio de Trier não para em referências, pois, a própria construção do protagonista demonstra um profundo conhecimento do desenvolvimento de um serial killer, de sua infância à escolha do tipo de vítima. Além disso, o retrato de distúrbios mentais como o TOC, ansiedade, e outros é extremamente afiado.

O paralelo entre Jack e um artista é muito explorado no filme. O perfeccionismo dele com sua obra é colocado lado a lado com cenas de Glenn Gould – um grande dos grandes pianistas do século passado, segundo o personagem, o melhor – ensaiando. Em outros momentos, temos comparações diretas entre as “obras” do assassino e obras de arte, particularmente citando Blake. Ainda mais importante, há um espelhamento de Trier em Jack, particularmente quando Virgílio comenta sobre a especificidade das vítimas do assassino, e este se defendendo argumentando que também matara homens – uma crítica muito comum aos filmes de Trier é sua violência excessiva, tanto física quanto psicológica contra mulheres.

 Os paralelos entre o longa e a rima também estão também no fato que o primeiro é um acúmulo de todos conhecimentos e domínios do diretor. A fotografia faz referência a todas as fases de sua obra: de momentos extremos de zoom e câmera se movendo freneticamente com uma saturação diferente das cores em voga, a momentos que criam verdadeiros retratos em tela.

A trilha sonora, por sua vez contém suas próprias simbologias e questionamentos. O tema principal é a Sinfonia da Partita nº 2 BWV 826 de Johann Sebastian Bach, música ensaiada por Glenn Gould nas cenas mostradas. Profundamente cerebral, a música de Bach já se fez presente em outras obras de Trier, em particular, “Ninfomaniaca, Parte 1”, onde ele destrincha parcialmente a polifonia do compositor, embora de maneira questionável. Outras faixas, m sua maioria de origem clássica, trazem suas próprias referências e simbologias que o espectador precisa escutar por si próprio para compreender.

As atuações, assim como o diretor, são afiadas: Matt Dilon consegue transmitir muito bem a falta de empatia e as “loucuras” de Jack. Bruno Ganz, embora pouco apareça, faz com sua voz um Virgílio que ao mesmo tempo é um advogado do santo e do diabo. Além disso, as mulheres também traduzem bem as expressões necessárias – merece destaque Uma Thurman, que faz bem o papel de irritante, de uma maneira que não soa exagerada, mas real.

Existem porém, alguns problemas com a produção: Para quem não está acostumado ao diretor, ele não faz questão que suas obras sejam agradáveis. A questão da violência gráfica é incômoda, ao ponto de incluir até mesmo violência contra animais e crianças, algo que mesmo para algumas pessoas fortes pode não ser fácil de ver.

A duração das sequências também envolve certo didatismo das referências, que muitas vezes o público já domina, mas na era de Google e serviços de pesquisa digital pode soar como pretensioso ou presunçoso em relação ao público.

“A casa que Jack construiu”, como todo trabalho de Lars von Trier, não é fácil. As simbologias, a violência, os incômodos, e misoginia, de certa forma, são realmente difíceis de lidar. Porém é para aqueles que apreciam títulos simbólicos e artísticos. Quem tiver estômago para aguentar, assistirá a um filme profundo, interessante, e muito bem construído.

por Ícaro Marques – especial para A Toupeira

*A estreia oficial de “A casa que Jack construiu” no Brasil está prevista para 1º de novembro, mas o filme será exibido durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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