Crítica: “As Rainhas da Torcida”

Nas palavras do poeta e dramaturgo grego Sófocles: “Ninguém ama tanto a vida como o homem que está a envelhecer”. E, mesmo em dias atuais, o sentido da frase ainda diz muito sobre como encaramos o passar do tempo em nossa existência.

A trama de “As Rainhas da Torcida” (Poms) tem como protagonista Martha (Diane Keaton), que após um cruel diagnóstico de câncer de ovário terminal, decide passar seus últimos meses em uma espécie de lar para idosos com ares de condomínio fechado, no qual é possível encontrar quase tudo para a recreação e boa convivência de seus moradores.

Aperta o coração acompanhar a sequência em que ela se desfaz de seus pertences acumulados ao longo de tantos anos. Objetos que aos olhos dos outros são simples artefatos sem nenhuma história ou lembrança que os tornem especiais. Tudo resumido a uma pequenina caixa de papelão contendo uma foto da personagem em pleno auge da adolescência, outra imagem de sua mãe e um uniforme de líder de torcida – este, que se será responsável pelo cerne da narrativa.

Inicialmente arredia em relação a criar novos laços, Martha – que é essencialmente uma pessoa solitária – se vê fazendo uma inesperada amizade com sua vizinha Sheryl (Jacki Waever), cuja alegria de viver contagia e faz pensar em como muitas vezes somos mesquinhos conosco, ao deixar passar batido cada minuto de vida que deveria ser apreciado em toda sua plenitude.

Com o sonho de ser líder de torcida interrompido pela doença da mãe, Martha vê, após tantos anos, a possibilidade de realizar seu desejo com a criação de um clube do qual outras senhoras farão parte e cuja atividades incluem a criação de coreografias a serem apresentadas no Show de Talentos do local.

Seria utopia imaginar que tudo aconteceria sem nenhum percalço, afinal, estamos falando de mulheres que estão naquele ponto da vida em que nem tudo que o coração anseia é atendido pelo corpo. São ombros que doem ao erguer o tradicional pompom, joelhos operados que insistem em não dobrar como deveriam, tonturas ao pular para execução de um passo simples. Mas, ainda que esse quadro pudesse ser deprimente, o que prevalece é a força de vontade e a superação de cada uma, ainda que dentro de óbvios limites – e isso é o suficiente para nos fazer torcer pelo êxito delas.

No longa dirigido por Zara Heyes ainda há espaço para mostrar que conflitos acontecem em todas as fases da vida e que nem sempre ser popular é sinônimo de ser feliz – como vemos com a estudante Chloe (Alisha Boe). Muitas vezes, a sociedade se acostuma a enxergar as coisas de uma maneira e não aceita nada que saia dessa zona de conforto, ainda que existam tantas e tantas coisas lá fora.

Eu gostei demais de ver que o envelhecimento físico não necessariamente precisa fazer frente ao que somos de verdade. O sonho de adolescente de Martha que permaneceu adormecido por tantos anos, a jovialidade emocional de Sheryl que tem mais disposição do que muitos outros com menos idade do que ela, o amor que permanece visível entre Olive (Pam Grier) e seu marido – que se mostra encantado ao ver a esposa se apresentar. Coisas que parecem simples, mas que fazem toda a diferença quando pensamos em quão limitado e passageiro é nosso tempo nesse mundo.

Classificado como comédia, o longa faz rir por ser simples e natural, assim como faz chorar pelos mesmos motivos. Vale conferir.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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