Crítica: “Halloween”

Atingir o status de clássico pode não ser das missões mais complicadas no mercado cinematográfico, mas fazer jus ao título por quatro décadas é para poucos – ainda mais quando se trata de um título do gênero terror, cujo público é tão fiel quanto exigente.

Em 1978, fomos apresentados a Michael Myers (Nick Castle, que volta a interpretar o papel, pela segunda vez, em uma participação especial / James Judy Courtney), que com apenas 6 anos já se tornava um assassino. A brutalidade da ideia de que o mal em sua forma mais pura já se fazia presente em seu cérebro desde tão tenra idade, e que só evoluiu com o passar dos anos, o tornou um dos nomes mais populares entre os seriais killers dos cinemas.

Depois da estreia de “Halloween – A Noite do Terror”, que completa quarenta anos em 2018, outras nove produções foram feitas, nesta que é uma das maiores franquias de terror já realizadas. E entre mais baixos do que altos, Michael está de volta em um longa que, sabiamente, se propõe a dar continuidade apenas à trama apresentada no primeiro capítulo da saga e que, como ele em sua versão original, tem o título simples e efetivo de “Halloween”.

Com o tempo correndo de maneira linear, temos a história se passando em dias atuais e é incrível perceber como isso faz sentido e dá ao filme uma nova perspectiva. Lauren Strode (Jami Lee Curtis) não conseguiu superar os traumas da adolescência e tornou-se uma mulher reclusa e amargurada, que passa por dois casamentos fracassados e perde a guarda da filha única, Karen (Judy Greer), por suas atitudes vistas com ressalvas pela sociedade – como ensinar a criança a manejar armas desde cedo. Mais tarde, vemos que essa distância influencia inclusive seu relacionamento com a neta Allyson (Andi Matichak) e o genro Ray (Toby Huss).

Condenado à prisão perpétua pelos cinco crimes cometidos, Michael será transferido de hospital psiquiátrico sob a rígida supervisão do psiquiatra Dr. Sartain (Haluk Bilginer), adivinhe em que propícia data? Sim, na noite de Halloween – algumas coisas nunca mudam.

A ação começa na véspera da transferência, quando ele recebe a “visita” de Aaron e Vicky (Jefferson Hall e Virginia Gardner, respectivamente), dois jornalistas que pretendem falar sobre sua trajetória em um podcast. A sequência passada no pátio, com a incômoda movimentação da câmera e todo o barulho dos outros prisioneiros em oposição ao silêncio completo de Michael é uma das mais perturbadoras dos últimos tempos.

Como não chega a ser surpresa, o protagonista foge durante a viagem ao novo local em que ficaria preso e dá início a uma nova e muito bem sangrenta chacina. Sai o serial killer obcecado por adolescentes, entra sua versão ainda mais perigosa e maligna, que mata sem critério ou distinção. Todos que cruzarem seu caminho são potenciais alvos.

A participação de Lauren é fundamental para dar andamento à narrativa. Quanto mais ela tenta fugir de seu passado, mais próxima fica de seu presente e ambas as épocas têm em comum seu impiedoso algoz. E, por mais que se passe uma vida inteira em preparação para determinado momento crucial, quando este chega nunca é simples de encarar.

Difícil separar o que pode ser visto como clichê (como as pessoas que insistem em deixar portas destrancadas à noite ou pegar caminhos tortuosos e abandonados) do que é uma clara homenagem à obra de John Carpenter, que agora ocupa o cargo de produtor. Para mim, o longa é composto por uma sucessão de acertos que vão dos créditos iniciais – com direito à icônica abóbora e ao incrível tema principal de sua trilha sonora -, à opção por mostrar o quão dependente de sua máscara é o personagem, numa espécie de simbiose macabra que se manteve intacta por todos esses anos.

Vale ressaltar que há um rápido acontecimento que deve colocar à prova a fidelidade dos fãs prévios, mas acredite: após um enorme choque inicial, a sequência da cena é digna de provocar saltos de satisfação nas cadeiras.

Como espectadora de terror, saí feliz com a qualidade do filme. Como fã de carteirinha da franquia, saí agradecida por terem dado essa nova oportunidade a ela. Se for a última vez que vejo uma produção inédita protagonizada por Michael Myers, posso dizer que a saga foi encerrada com chave de ouro; se não for, que venham novas histórias tão convincentes e sagazes quanto esta.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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