Crítica: “Maria Madalena”

Não sou o que se pode chamar exatamente de uma pessoa religiosa (apesar de ter minhas crenças pessoais). Tampouco sou partidária de qualquer ideologia política ou me dedico a assuntos que possam restringir qualquer ato de bondade a algum grupo específico.

E foi com esses olhos de pessoa comum, que assisti ao longa dirigido por Garth Davis, “Maria Madalena” (Mary Magdalene). Foi com esse pensamento simples que vi a história de uma mulher que, acima de tudo, tinha amor pelo próximo em seu coração.

Para quem tem o mínimo de conhecimento que seja sobre os textos bíblicos (ainda que isso signifique apenas acompanhar os inúmeros filmes já feitos sobre o tema), não deve ser uma grande surpresa o fato do filme não trazer nenhuma novidade exclusiva.

A trama permanece a mesma: os últimos dias de Jesus (Joaquin Phoenix) – tido como uma espécie de curador por seus seguidores, a traição que levou à sua captura e posterior crucificação. De diferente, o fato desta sequência deixar de ser o cerne da produção, que tem na vida da humilde pescadora Maria Madalena (Rooney Mara) seu eixo central.

A jovem encontra seus algozes na própria família, que tenciona vê-la casada o mais rápido possível, afinal “essa é a obrigação da mulher na sociedade”. A proposta surge de um rapaz viúvo, com quem ela haveria de ter muitos filhos – além, é claro, de cuidar dos que ele já teve com sua esposa anterior.

Ao declarar que “não nasceu para essa vida”, a protagonista é tida como alguém que sofre com alguma espécie de possessão maligna, o que faz com que seu pai e seu irmão tomem as atitudes que julgam necessárias para livrá-la desse mal. Após isso, não há como condená-la por ir embora de casa, para acatar o que seu coração mandou – nesse caso, a palavra de um homem considerado santo pelos que tomaram a decisão de seguir não apenas seus discursos, mas seus passos, literalmente.

É muito bonito ver o crescimento de Maria Madalena, que, quanto mais se aproxima da obra de Jesus, mas se sente à vontade em sua missão de fazer o bem sem olhar a quem. Coisa cada vez mais rara hoje em dia, a misericórdia é algo tão corriqueiro em suas ações, que chega a ser comovente – independente da religião, dogma, crença, ou até mesmo da falta de algum, de quem assiste à produção.

Mais do que a personificação do sagrado, o filme procura mostrar os personagens como pessoas que têm em sua fé e boas ações, seus maiores trunfos. E como simples seres humanos, também têm suas falhas: Entre os apóstolos, mais do que “apenas” a traição de Judas (Tahar Rahim), vemos a desconfiança e até mesmo o cinismo de Pedro (Chiwetel Ejiofor) em relação a ter uma mulher integrando seu grupo. Antes de enxergá-la como uma boa adição, que poderia arrebanhar novas seguidoras, foi preciso vê-la como semelhante.

Através dos olhos da protagonista, acompanhamos a condenação de Cristo, o repouso de seu corpo inerte no colo de sua mãe e a ressurreição que, presenciada apenas pela protagonista, serve de momento chave para definir até que ponto a fé seria suficiente para iluminar os caminhos dos que continuaram disseminando as palavras do homem que sempre parecia ter o discurso certo.

No ano 591, Maria Madalena foi tachada como prostituta pelo Papa Gregório Magno. Em 2016, Papa Francisco reparou a história e convenceu a igreja a considerá-la apóstola e evangelista – visão esta, mantida no longa, uma vez que a vemos à mesa durante a Última Ceia e com a missão de dar continuidade ao trabalho de Jesus após a sua morte / ascensão aos céus. E, se não há nenhuma insinuação de amor carnal, talvez o tipo de amor proposto pela obra seja ainda mais raro e válido – algo muito maior, que infelizmente poucos parecem dispostos a entender.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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