Crítica: “Pica-Pau”

Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece…

Estreando em 1940 como coadjuvante em – “Pica-Pau Ataca Novamente”, episódio cujo protagonista era o ursinho Andy Panda – e com a previsão de que esta seria sua única aparição -, certo pássaro de conduta questionável, criado por Walter Lantz tornou-se um verdadeiro ícone dos desenhos animados.

Depois de 196 episódios (além do piloto) exibidos ao longo de 32 anos – fora a leva mais atual, sem o mesmo grau de excelência / aceitação – já era hora de sair da telinha para ganhar os cinemas. Sob a direção de Alex Zamm, “Pica-Pau: O Filme” (Woody Woodpecker) traz o famoso personagem, um de meus favoritos de sempre, em uma aventura inédita e repleta de referências – das mais sutis às mais perceptíveis – o que o transforma em um produto até que simpático.

E lá vamos nós!

A trama se passa nos arredores da área verde onde o protagonista mora. Nesse cenário, o advogado Lance Walters (Timothy Omundson) e sua noiva Vanessa (Thaila Ayala) pretendem erguer uma mansão a fim de obter lucros exorbitantes no futuro. E é exatamente o que se mostrará uma missão quase impossível devido às peripécias e artimanhas do Pica-Pau, que também terá que lidar com caçadores ilegais que pretendem capturá-lo para vendê-lo a colecionadores no mercado paralelo.

Com personagens adultos medianos / “vítimas fáceis” para a astúcia do pássaro, cabe às crianças parte das boas cenas. Ênfase na interpretação de “Surfin’ Bird”, canção de 1963, do grupo The Rivingtons (cuja letra merecia uma legenda em português) e para o primeiro encontro entre o garoto Tommy (Graham Verchere) e o Pica-Pau, regado a bolachinhas de manteiga de amendoim e muito carinho nas penas.

Yo no lo conoço, señor!

Eu sempre digo que para amar o cinema em sua totalidade – ou o mais próximo disso – é necessário abraçar o absurdo. Não dá para esperar muita coerência em um longa que tem como estrela um pequeno pássaro mais racional e astuto do que muitas pessoas. O problema é a tentativa de transportar tais características para “o mundo real”, com o politicamente correto cada vez mais dominante em todas as esferas da sociedade.

Quero morrer de catapora!

Nos desenhos, ninguém estranha a presença de um animal que fala, inclusive interagindo com ele. No filme, suas palavras não são entendidas pelos humanos, que apenas ouvem um piado (mais “normal”, mas também mais sem graça). E o que dizer do momento em que um passarinho que pesa poucos gramas consegue arremessar dois homens adultos contra a parede durante uma fuga? Funcional na animação, porém incômodo no live-action.

Eu gosto de você!

O destaque positivo fica para a quebra da quarta barreira, que coloca o protagonista falando diretamente com o público diversas vezes, e para os pequeninos detalhes inseridos durante toda a narrativa, que demonstram a preocupação em fazer com que os fãs de longa data também possam se sentir confortáveis, de alguma maneira. A movimentação que inclui dancinhas, as expressões de deboche escancarado, até mesmo o formato de seu bico “plissado” após ficar preso em uma porta de madeira, acabam por remeter aos aparentemente insuperáveis desenhos antigos.

Talvez eu esteja louco. Eu vou ver o psi… isqui… Eu vou ver o doutor…

Pena que a música “Everybody thinks I’m crazy”, tocada na versão original em seu primeiro episódio próprio, “Pica-Pau Biruta”, e em clássicos como “O Rachador” e “A Loja do Prego” – todos de 1941 -, seja executada com sua letra adaptada para o português. A melodia ainda está lá, mas não é como eu gostaria de ouvir.

Quando você vai embora e eu fico… Eu choro, choro, choro…

Apesar de imaginar que coadjuvantes de peso como Zeca Urubu, Zé Jacaré, Meany Ranheta, Dooley, Pé de Pano e Leôncio não estariam na história, como espectadora fiel, confesso ter sentido falta deles. Acho que ainda preciso me acostumar à nova – e tão diferente – proposta do filme.

por Angela Debellis

Filed in: Cinema

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