Crítica: “Um Amor Inesperado”

Marcos (Ricardo Darín) e Ana (Mercedes Morán) formam um casal faz 25 anos. Levam-se muito bem e tem um filho único, Luciano (Andrés Gil), já jovem e que viaja para a Espanha para fazer um curso universitário. Embora planejada e desejada pelos pais, esta saída cria um vazio profundo na vida dos protagonistas ao ficar sozinhos. Há uma desestruturação que vai culminar com a separação matrimonial. Cada um por seu lado, ambos vão viver respectivamente três novos relacionamentos.

Em forma quase imediata o espectador pode associar a situação com a chamada síndrome do “Ninho Vazio” (que é o título de outro filme argentino, de 2008 e exibido no Brasil no ano seguinte). Não passa muito tempo em que esta expressão é utilizada em “Um Amor Inesperado (El Amor Menos Pensado).

Virá uma série de acontecimentos em matéria de relacionamentos e, em especial, se sucederão reflexões e questionamentos. A sedução, a amizade, a angústia existencial, a liberdade pessoal, o medo de envelhecer, os tipos de separações, a aceitação da vida independente dos filhos – que percorrem caminhos diferentes aos que prefeririam os pais.

Também há uma lista de observações sobre a vida, os relacionamentos, as pessoas:

– Que coisas funcionam bem depois de 25 anos? As coisas, quando se usam, se deterioram.

– Temos impulsos, desejos, culpas.

– A mulher se sente bem quando é protegida, querida, desejada. (quando a esposa diz isso, ele responde que a quer, adora, admira e deseja).

– Para que uma pessoa se separa ou, melhor, por que se separa?

– “O drama de um homem é não poder ficar sozinho em um quarto” (citação atribuída ao filósofo francês Pascal).

Esta é uma produção argentina que tem muitos elementos próprios desse cinema. Inicia-se com a voz em off de Ricardo Darín e um plano próximo dele. É o protagonista, o que nos faz lembrar mais uma vez a pergunta brincalhona: será que existe algum filme argentino atual que não tenha Darín como ator?

Isso tem a ver com o fato de ter atuado, já desde pequeno, em 53 produções argentinas, hispano-argentinas e espanholas. Em especial a partir do ano 2000 e com a participação em “O Segredo de seus Olhos” (ganhadora do prêmio Oscar em 2009). Exemplo atual é seu papel em “Todos Já Sabem” (Todos Lo Saben), também em cartaz no Brasil.

Uma curiosidade é que o nome do protagonista seja Marcos, que também foi utilizado em “Nove Rainhas”, aquele detalhista e preciso filme dirigido e roteirizado em 2000, pelo saudoso Fabián Bielinsky – falecido prematuramente estando em São Paulo. Essa coincidência de “Marcos” talvez seja uma homenagem.

Tanto Darín quanto Mercedes Morán cumprem de maneira satisfatória com seus extensos papéis. Ele, no início, o faz em forma discursiva, mas depois passa a ter uma atuação mais gestual, expressiva, embora bastante contida e sempre correta, como é habitual. Morán também está a essa altura.

A eles podem acrescentar-se diversos atores e atrizes, dentre os que se pode citar a Norman Briski (Rafael, o pai de Marcos) que com sua vasta experiência e seus 81 anos representa com propriedade uma curiosa cena. Aliás, aqueles mencionados novos relacionamentos dos separados resultam bastante excêntricos e há situações bizarras em ambos casos.

Menos conhecido, mas pode ser dito, é o fato de ser uma produção na qual interveio Patagonik, uma empresa prolífica e também teve o apoio do INCAA (Instituto Nacional del Cine), o que deu maior peso ao filme. O diretor é Juan Vera, já conhecido como roteirista e produtor e que agora debuta nesta nova função e o faz em forma bastante interessante. O longa tem humor e ironia principalmente no início e não carece de conteúdo. Em geral é dinâmico nos 136 minutos de duração, embora com passagens que poderiam ser abreviadas.

Com relação a isto, o protagonista, em sua condição de professor de Literatura Latino-americana, diz que o que é inadmissível nos textos literários é o tédio. Que neste continente há miséria e que essa deveria ser a matéria principal. O insólito é que justamente nessas sequências é quando o produto resulta um pouco tedioso.

A reflexão literária, aliás, já tinha sido elaborada em “Lugares Comuns” (2003), do excelente Adolfo Aristarain, na qual a trama se desenvolve ao explorar a aposentadoria compulsória de um professor universitário (o ator Federico Luppi, também excelente).

Mas o saldo global de “Um Amor Inesperado” é positivo; sem ser extremamente complexo, cumpre em entreter ao acompanhar o casal protagonista e seus diversos vínculos e respectivos sentimentos, e também consegue fazer refletir em uma dose razoável.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Longa assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Pandora Filmes.

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