Mais de duas décadas já se foram, desde que uma inusitada dupla formada pelo gentil herdeiro de um líder viking e um simpático dragão saiu diretamente da imaginação de Cressida Cowell, para ser apresentada aos leitores do Reino Unido em 2003. Sete anos depois, foi a vez de o Brasil conhecer os improváveis amigos, com a edição em português publicada pela Editora Intrínseca.
Os carismáticos personagens não só teriam suas aventuras contadas em uma saga literária composta por doze volumes, como ganhariam três produções animadas nos cinemas, além de séries televisivas e uma infinidade de produtos temáticos.
Com fãs leais e um sucesso que se mantém sólido, a transposição da narrativa para uma versão live-action era questão de tempo. E é essa obra que chega aos cinemas em 2025. Saem as figuras animadas tão conhecidas do público, para a entrada de um elenco real que, com a ajuda de ótimos efeitos práticos e visuais, dá uma nova camada aos fatos mostrados no longa de 2010.
Passada na fictícia Ilha de Berk, a história de “Como treinar o seu Dragão” (How to train your Dragon) permanece basicamente a mesma, o que deve agradar os admiradores em geral. O protagonista (humano) é Soluço (Mason Thames), filho único de Stoico, o Imenso (Gerard Butler), respeitado chefe da tribo viking dos Hooligans Cabeludos.
Sem nenhuma habilidade aparente, o garoto tem que provar seu valor, quando entra para um treinamento ministrado pelo veterano Bocão Bonarroto (Nick Frost), que visa ensinar a nova geração de guerreiros a caçar os maiores inimigos da população local: os temíveis dragões que põem a aldeia frequentemente em perigo, graças a ataques impiedosos e mortais.
Entre os jovens estudantes, o destaque é Astrid (Nico Parker), cuja aptidão nata a coloca muito à frente dos demais, incluindo o arrogante Melequento (Gabriel Howell), o cordial Perna de Peixe (Julian Dennison) e os excêntricos irmãos Cabeçadura (Harry Trevaldwyn) e Cabeçaquente (Bronwyn James).
Na busca da aprovação – em especial de seu pai -, Soluço constrói um aparato que atinge aquele que todos temem, mas que nunca viram de perto: um dragão da espécie Fúria da Noite. É quando conhece Banguela (que, ao contrário de sua representação nos livros, tem dentes, porém, retráteis) e entenderá que essas criaturas maravilhosas podem ser muito mais do que apenas os vilões.
A construção da amizade entre eles é encantadora. O modo como se deixam descobrir um ao outro, a percepção da cumplicidade que se cria com a aproximação física e emocional, tudo se junta para dar aos espectadores, mais uma vez, a indescritível sensação de voar livremente nas costas de um dragão, em cenas que nos fazem desejar que, em algum lugar – ainda e, quem sabe para sempre, desconhecido -, a realidade seja mesmo tão fantástica.
“Como treinar o seu Dragão” é um dos raros casos em que mudanças drásticas no material base não afetam a qualidade da nova proposta. A trama adaptada e dirigida por Dean DeBlois pouco lembra o texto original de Cressida Cowell, mas consegue ser tão impecável quanto.
Coisas que talvez não funcionassem nos cinemas – como o tamanho de Banguela, nas páginas representado como um minúsculo dragão que cabe no capacete de Soluço – foram alteradas para dar a profundidade e aumentar a relevância do que se espera ver nas telonas.
E quem ganha com isso é o público, que, ao conhecer as diferentes visões das obras, tem a chance de acompanhar conteúdos distintos e admiráveis, com o mesmo poder de encantar, comover e provocar sorrisos.
Sob a linda trilha de John Powell e com o excelente trabalho de fotografia de Bill Pope, nem vemos os 125 minutos de duração do filme passarem. A boa notícia é que já temos data para voltar a Berk, uma vez que o live-action de “Como treinar o seu Dragão 2” foi confirmado para junho de 2027.
Imperdível.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.


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