Uma fotografia com contornos belamente definidos em preto e branco, musicados pelo supremo e terrível invasor oceano dá o tom ao drama nacional “A Praia do Fim do Mundo”.
O silêncio do profundo oco do coração e da mente lânguida de Helena (Marcélia Cartaxo) contrasta com o desesperado grito sufocado e engolido pelo mar maternal de Alice (Fátima Macedo). Helena age como uma rocha, segura de que não será furada por sua “filha-mar”, Alice.

Solidão, agonia e abandono permeiam essa família de duas mulheres, marcadas pelo medo. Uma, com o medo de ser invadida e levada pelo mar. A outra, justamente por não ser levada por aquele que o mar não devolveu, continua seus dias à espera.
A história se passa na notícia, na tragédia, no desespero do futuro, em Ciarema, onde real e o fictício se misturam, num cenário que aponta para a realidade presente, não mais futura.

Com as mudanças climáticas, devido à destruição da natureza, provocadas pelos humanos egoístas e inconsequentes, apoiadas pelos negacionistas, o mar não está subindo. Ele já subiu. E destruiu a Ciarema de Helena, Alice, e todos os fugitivos de suas casas despedaçadas.
É a premonição dos intuitivos se realizando. É o resultado da pesquisa científica alarmista provando a verdade.

Todos os outros personagens, – menos Elisa (Larissa Góes), a amiga de Alice, que é engolida pelo destino – são alheios à resistência e citados como rubricas de um livro, e muitas vezes, não se materializam em nossas mentes, não têm força. Até mesmo o “filho-esperança” é frio como uma rubrica. Mais parece a gestação de uma palavra, ou menos que uma ideia.
Com vários prêmios recebidos em diversos festivais brasileiros e internacionais, “A Praia do Fim do Mundo” é tudo isso, e muito mais, através da poética direção de Petrus Cariry, somada à profundidade cênica de Marcélia Cartaxo, e voz da questão de Fátima Macedo.
por Carlos Marroco – especial para A Toupeira
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Sereia Filmes.


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