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Crítica: “Michael”

“Você é confiante. Você é forte. Você é lindo. É o maior de todos os tempos.”

Talvez seja da falha natureza humana de alguns, considerar a nostalgia uma emoção que não merece ser valorizada, afinal, é impossível voltar aos tempos recordados e que tanto acabam nos fazendo falta, em algum ponto de nossas vidas.

Mas, há quem veja essa saudade como parte de sua história, do amor que você guarda. Um elemento que ajuda a nos tornarmos indivíduos únicos, com lembranças para as quais nunca podemos dizer adeus.

Embora eu tenha ido a shows de quase todos os artistas musicais que sempre admirei, a verdade é que uma lacuna ficou vazia. A partida de Michael Jackson, em 2009, acabou com meu sonho de ver pessoalmente o Rei do Pop brilhar no palco. Mas, agora a sensação é a de que esse vácuo foi preenchido (de um modo agridoce), com a chegada de sua cinebiografia às telonas.

A vida do cantor que até hoje detém o título do álbum mais vendido de todos os tempos foi cercada de polêmicas. Da criação que confundia rigidez com crueldade, à insatisfação com a própria aparência; da dificuldade em desvencilhar-se das amarras familiares, ao triste quadro de dependência de remédios controlados.

Sem contar outros delicados e problemáticos assuntos que dominaram seus últimos anos e colocaram em dúvida sua integridade moral – e que, mesmo após anos de sua partida, ainda servem como divisivos para que surjam ataques à sua memória.

Contar suas passagens mais importantes parecia algo improvável de se conseguir. Mas, a narrativa de “Michael” faz com que sejamos capazes de  lembrar que se você quer começar alguma coisa, você deve estar começando alguma coisa! E é com isso em mente que o longa compila, em pouco mais de duas horas, fatos que ajudam o público a entender / relembrar quem foi / é / sempre será o nome mais influente da indústria da música.

Escrita por John Logan, a trama começa em 1966, em Gary, Indiana, e mostra Michael ainda criança (nessa fase, interpretado por Juliano Valdi), dando os primeiros passos para o estrelato junto a seus irmãos Jermaine (Jayden Harville), Marlon (Jaylen Lyndon Hunter), Tito (Judah Edwards) e Jackie (Nathaniel Logan McIntyre).

Mas, o caminho para o sucesso – que, muitas vezes é mau – torna-se ainda mais tortuoso sob o jugo de seu pai, Joseph (Colman Domingo). Sob o viés de não querer que os filhos passem por dificuldades, ele os condena a uma rotina desumana quando estão longe dos holofotes.

Não importa que o público ame o Jackson 5, nem que a impressionante afinação de seu pequeno vocalista seja exaltada por profissionais do ramo. Para o patriarca da família, a perfeição está longe de ser alcançada e a punição física é a única coisa que lhe satisfaz.

E, mesmo sem concordar, a mãe das crianças, Katherine (NIa Long), nada faz para salvá-las do perigo que mora sob o mesmo teto, cabendo a ela apenas o consolo moral e a delicadeza em reconhecer o quanto há de especial em seu garotinho.

Quando o grupo assina com a Motown Records, em 1969, é questão de tempo até que os jovens e talentosos irmãos assumam o posto de estrelas e a humilde vida da família passe por uma mudança radical. O futuro sem perspectivas que parecia ser reservado a eles dá lugar a uma realidade repleta de expectativas favoráveis e crescimento duradouro.

Contudo, Michael (agora vivido de maneira inacreditável por Jaafar Jackson) não está feliz. Sua maior conexão é com seus animais de estimação – como o ratinho Ben e o chimpanzé Bubbles, a quem considera seus verdadeiros amigos. E essa solidão é visível para quem o olha com o respeito que ele merece – nesse caso, pessoas fora de seu círculo familiar, como o segurança particular, Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones).

Enfrentando seus medos e desfiando limites físicos (já que precisava manter os compromissos firmados com o Jackson 5), Michael começa a dar forma a seu primeiro álbum, apropriadamente nomeado como “Off the Wall”, em 1979. Esse é o primeiro passo de sua bem-sucedida carreira solo, marcada por momentos inesquecíveis.

Entre eles, a gravação do icônico álbum “Thriller”, em 1982 (que, assim como sonhado pelo cantor, segue como disco de maior sucesso no mundo, com uma cifra oficial estimada em mais de 105 milhões de cópias vendidas até hoje); o clipe de “Beat It” (cujos bastidores são ainda mais fantásticos); e a estreia do inigualável passo “Moonwalk”, em meio à execução de “Billie Jean” em 1983 (durante as celebrações dos 25 anos da Motown), ainda fazem os fãs pensarem: “Eu quero você de volta”.

Sob a direção de Antoine Fuqua, o filme nos dá a oportunidade de enxergar além da camada que fez do menino negro e pobre, morador de uma cidade em declínio, uma super-estrela de relevância global. E como esse título impactou diretamente em sua saúde física e mental, enquanto em sua cabeça dominava o pensamento: “Não pare até conseguir o suficiente”.

Muitos são os pontos a se destacar, incluindo as interpretações impecáveis de todo elenco (em especial, Jaafar, que me tirou sorrisos e lágrimas pela representação tão crível de seu tio) e o extremo cuidado em se recriar sequências tão adoradas pelos fãs, ao mesmo tempo em que conta o ocorrido às novas gerações que não viveram essas épocas mágicas.

“Michael” é mais do que uma justa celebração à figura de Michael Jackson. É a resposta à pergunta que talvez tenha sido feita incontáveis vezes a ele: “Daqui a um tempo, quem vai amar você?”. E o que separa quem parece ter desaprendido o ABC do respeito ao próximo, daqueles que permanecem firmes ao dizer “Eu estarei aqui para você”.

Absolutamente imperdível.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.

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