“Eu sou maravilhoso. Eu mereço ser maravilhoso. Eu contenho multidões”
Drama e Terror não costuma ter parcerias óbvias, mas não são totalmente excludentes. Pelo menos não na vasta carreira do escritor norte-americano Stephen King, que acumula inúmeros êxitos com trabalhos que giram em torno desses dois temas.
Com a mesma maestria que o “Rei do Terror” provoca pesadelos em quem lê títulos clássicos como “IT – A Coisa”, também causa uma profusão de lágrimas quando envereda para algo mais emocional como “Um Sonho de Liberdade” – cuja versão para os cinemas figura constantemente em listas dos melhores filmes de todos os tempos.
A Vida de Chuck” (The Life of Chuck) é um dos quatro contos que compõem o livro lançado em 2020, “Com Sangue”. Tive a chance de ler o material no qual o longa que estreia nas telonas se baseia, na véspera de sua exibição para a imprensa e, já sabendo do que se tratava, não imaginei que seria inundada novamente pela emoção. Ledo engano.
Tal como na obra literária, a narrativa adaptada e dirigida por Mike Flanagan se passa em três atos distintos, em ordem inversa de sua cronologia. Muito do que vemos em sua primeira parte, só será entendido conforme a história avança e é aí que mora a grande beleza da produção: na forma de conduzir o espectador a revelações que ajudam a moldar a trajetória do personagem principal.
Com a onipresente narração de Nick Offerman, descobrimos que o mundo está entrando em colapso. Desastres da natureza, extinção de animais, Internet desabilitada. Pessoas desaparecem, outras apenas desistem e passam a aguardar pelo fim, sem nem ao menos lutar.
É nesse cenário que o professor Marty Anderson (Chiwetwl Ejiofor) tenta reconectar-se com sua ex-esposa, Felicia Gordon (Karen Gillan), enquanto veem tudo ao seu redor desaparecer há cerca de oito meses, de maneira inexplicável.
Na busca pela resposta à pergunta: “Se o mundo estiver acabando, com quem você gostaria de estar no final?”, uma conversa com o vizinho Gus (Matthew Lillard), ou uma curta caminhada com Sam (Carl Lumbly) – um meteorologista frustrado que se tornou agente funerário – ganham contornos solenes e fazem pensar no quanto deixamos de observar na correria do dia a dia.
Se a vida na Terra está chegando ao final, será que cabe a alguém sentir gratidão? Com o rosto espalhado por todos os lugares – de outdoors a grafites em muros, de anúncios de televisão a mensagens de fumaça escritas no céu – Charles “Chuck” Krantz (Tom Hiddleston) surge sereno e, aparentemente satisfeito após 39 anos, celebrando o que a todos dá a sensação de ser sua aposentadoria.
O reservado contador (que deixou suas ambições de ser dançarino de lado, na infância), marido fiel à esposa Virgínia (Q’orianka Kilcher) e pai de um único filho, Brian (Antonio Raul Corbo), é o centro do longa, que segue mostrando como sua rotina – monótona, mas longe de ressentimentos – vai mudar, após o diagnóstico de uma doença terminal.
Até que isso o afete, a construção de suas lembranças ganha um novo e belíssimo capítulo representado por um inesperado número de dança – com um vislumbre mostrado rapidamente no trailer oficial – quando faz dupla com Janice Halliday (Annalise Basso), ao som da bateria de Taylor Franck (Pocket Queen). Mal sabiam a jovem atendente de livraria que foi dispensada pelo namorado e a vendedora da loja de instrumentos musicais que não se deixou limitar pelas regras da Juilliard, o quanto impactariam o emocional do protagonista.
Como escrevemos nossa própria história? O quanto nos permitimos influenciar pelos ensinamentos de quem nos cerca? Criado pelos avós paternos, Sarah (Mia Sarah) e Albie (Mark Hamill), Chuck (na infância, interpretado por Cody Flanagan e Benjamin Pajak; na adolescência, por Jacob Tremblay) aprenderá, desde muito cedo a perceber o que de fato importa. Talvez por esse motivo, torne-se alguém tão especial – mesmo que à primeira vista, não tenha nada de relevante.
“A Vida de Chuck” é daquele tipo de filme memorável, que permanecerá emocionando o público muito tempo depois do acender das luzes – mérito também da linda trilha sonora composta por The Newton Brothers.
E deixará um ensinamento que pode aparentar trivialidade, mas do qual nem sempre nos lembramos, simplesmente porque pensar em nossa inevitável finitude é assustador à grande maioria: Talvez a felicidade plena não exista, mas ainda assim, devemos celebrar os momentos felizes que tivermos a chance de viver.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.


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