“A Violência Revolucionária é o único caminho”
“Uma Batalha Após a Outra” (A Battle After Another) já começa de forma impactante, com a libertação de imigrantes de um Centro de Detenção no bairro de Otay Mesa, localizado no estado americano da Califórnia.
À frente do resgate estão os revolucionários conhecidos como French 75, liderados por Perfidia Beverly Hills (Teayana Taylor), que tem nas atividades da equipe a grande razão de sua existência, inclusive, no que está relacionado à sua vida pessoal.
A ação do grupo sofre a dura interferência do Coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), facilmente um dos personagens mais execráveis do gênero. Com o intuito de manter-se em sua posição de poder, ele não se furta em esconder certas nuances de seu caráter, transformando-se em uma figura ambígua, que inspira temor por sua conduta tida como irrepreensível – todavia, nos bastidores, é moralmente questionável (para dizer o mínimo).
Parceiro da impetuosa Perfidia, Ghetto Patt – também conhecido como Rocket Man (Leonardo Di Caprio) – é o responsável pela criação de bombas que são plantadas durante as manifestações do French 75, cujas batalhas travadas giram em torno de assuntos tão polêmicos quanto atuais, como a imigração ilegal e a legalização do aborto.
Mas, a vida do casal sofrerá mudanças drásticas com o nascimento de sua filha Charlene. A partir do momento em que se tornam uma família, as ambições relacionadas à necessidade de haver melhorias imediatas no mundo ganham outros contornos. Ou pelo menos, assim deveria ser.
Com a inesperada partida de Perfidia – que nunca demonstrou nenhuma aptidão em assumir o papel de mãe, ou vontade de se desvencilhar de seu passado – Patt decide dar um novo rumo à sua trajetória, longe dos duros combates urbanos.
Para isso, muda-se com a filha para a pequena cidade de Baktan Cross, sob as novas identidades de Bob e Willa Ferguson. Lá, vai passar os próximos dezesseis anos tão tranquilamente quanto possível. Até que um velho inimigo aparece e coloca sua pacata rotina em risco.
Longe de suas atividades há anos, Bob se verá em meio a uma guerra de ego, poder e vingança, da qual não poderá fugir, uma vez que terá que resgatar Willa (Chase Infiniti). Mesmo com a ajuda de antigos companheiros de revolução de seu pai – como Deandra / Lady Champanhe (Regina Hall), e seu generoso instrutor de caratê / líder dos imigrantes latinos, Sensei Sergio St. Carlos (Benicio del Toro) – a jovem é capturada e mantida refém, enquanto faz dolorosas descobertas.
A trilha sonora – sexta parceria entre Paul Thomas Anderson e Jonny Greenwood – é quase onipresente, em volume que beira o excessivo, na maior parte do tempo. O recurso pode aumentar a sensação de urgência que permeia toda a obra, mas corre o risco de soar equivocado para parte dos espectadores.
Além das faixas originalmente criadas para o longa, o destaque fica para a sagaz inclusão de clássicos como “Soldier Boy”, de The Shirelles, e “Dirty Work”, de Steely Dan, cujas letras ajudam a enriquecer pontos importantes da trama.
Com o roteiro sendo desenvolvido há cerca de 20 anos, “Uma Batalha Após a Outra” é livremente inspirado em “Vineland”, livro de Thomas Punchon – lançado em 1990 – que também trazia um conteúdo que debatia assuntos pertinentes à época relatada – nesse caso, os anos 1980, durante o governo do ex-presidente Ronald Reagan.
A atualização de temas feita por Paul Thomas Anderson (que, além de escrever, dirigiu o filme) traz a constatação de que, mesmo com óbvias – e inevitáveis mudanças – a verdade é que pouco evoluímos como sociedade.
E, como sempre, o que acontece longe de nossos olhos, ainda que pareça quase inacreditável quando trazidos à luz, pode ser rotineiro e aceitável para aqueles que talvez nem devam ser chamados de humanos.
Reunindo elementos que costumam agradar os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas “Uma Batalha Após a Outra” tem tudo para ser lembrado na próxima temporada de premiações.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.


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