
“Floresceu, floresceu… A Sakura floresceu…”
Arredores de Tóquio, década de 1940. A Segunda Guerra Mundial é uma dura realidade. Mas, se o mundo pouco a pouco se torna um lugar triste de se viver, a imaginação se mantém como um refúgio seguro para suportar as dores que a vida impõe sem piedade.
A trama de “Totto-chan: A Menina na Janela” (Madogiwa no Totto-chan / Totto-chan: The Little Girl at the Window) é adaptada a partir do livro autobiográfico da atriz e apresentadora Tetsuko Kuroyanagi. Lançada em 1981, a obra tornou-se best-seller em mais de trinta países e tem grande relevância entre as indicações de leitura nas escolas japonesas.
Sob a direção de Shinnosuke Yakuwa, que escreve o roteiro junto a Yôsuke Suzuki), as memórias impressas no papel ganham vida através da sábia decisão de contá-la como uma animação em 2D, cujo estilo mais tradicional e detalhista cabe perfeitamente na proposta.
Tetsuko Kuroyanagi (voz de Liliana Ôno na versão original), carinhosamente chamada de Totto-chan pelo pai, é uma adorável garotinha que, aos sete anos, é expulsa da escola, por não se encaixar nas normas rígidas do local. O encantamento da menina não cabe apenas dentro de si e transborda em suas palavras, ações e maneira de olhar para aquilo que a cerca.
Com a transferência para o colégio Tomoe Gakuen, a pequena protagonista tem a chance de dar vazão àquilo que carrega em seu coração: empatia, curiosidade e uma leveza que é tão peculiar nessa fase da vida.
Essa postura – que foge do “normal” à época – é incentivada pelo acessível diretor Sôsaku Kobayashi (Kôji Yakusho), que se mostra uma figura importante para a preservação da inocência infantil diante dos horrores e perdas impostos pelo que acontece nos campos de batalha.
Nesse cenário, Totto-chan fará novos amigos, entre eles, Yasuaki (Alice Portugal), cuja saúde frágil e as sequelas da poliomielite são obstáculos para aproveitar momentos coletivos com os demais alunos. Pelo menos até a chegada de uma certa menina, que não o enxerga como alguém inferior e faz de tudo para inclui-lo da melhor forma possível.
A passagem dos anos é marcada por mudanças drásticas causadas pela manutenção da guerra, que deixa marcas nos relacionamentos familiares, sufoca a liberdade de expressão e define caminhos duros de serem trilhados. É quando percebemos que a imaginação, embora seja uma ferramenta poderosa, nem sempre consegue equiparar-se à frieza das armas e munições do mundo real.
A trilha sonora de Yûji Nomi ajuda a pontuar os vários sentimentos que permeiam a obra. Assim como também o fazem as variações no estilo de animação em determinados momentos, que acrescentam uma dose a mais de sensibilidade, mas sem parecer exagerado.
Destaque para a delicada sequência passada debaixo de uma forte chuva, que faz com que as gotas que caem com vigor do céu tornem-se diminutos bálsamos para ajudar a esquecer – ainda que por um breve momento – as consequências que um período tão sombrio trouxe para milhares de pessoas inocentes.
Embora emocionalmente triste, “Totto-chan: A Menina na Janela” consegue ser, assim como sua protagonista, esperançoso. E esse é seu maior mérito, a lembrança de que, mesmo quando a paisagem não é mais bela, a fé em dias melhores nos levará sempre a persistir e dar mais uma olhadinha pelo vidro da janela.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Sato Company.


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