
“Onde há um monstro, há uma figura esquecida, fadada pelo destino a ser um pouquinho esquisita.”
Baseada no livro “Stitch Head” (que também é o título original da animação) de Guy Bas – lançado em 2001 com ilustrações de Pete Williamson -, a trama de “Frankie e os Monstros” se passa em torno do século 19, em Morro Tosco – vilarejo europeu com 665 habitantes, que convivem com o medo constante do desconhecido (entendam-se as criaturas que vivem atrás das paredes do Castelo Grotescal).
O lugar abriga o laboratório de Professor Maluco (voz de Roby Brydon na versão original), um cientista que, como o próprio nome indica, não está em suas plenas faculdades mentais. Com a ajuda de equipamentos grandiosos, ele traz as mais diversas seres ao que chama de “Quase Vida”, uma espécie de meio termo para indicar o espaço destinado aos monstros nesse mundo.
Enquanto busca dar origem à sua obra-prima, Maluco conta com a ajuda de Frankie (voz de Asa Butterfield) para preservar a segurança dos demais moradores – todos saídos de sua imaginação e habilidade em juntar pedaços que não parecem combinar, com o intuito de dar forma a corpos específicos.
Frankie é um adorável garoto – primeira criação do cientista e a que mais se aproxima do que poderia ser considerado “normal” para os padrões que conhecemos – ainda que haja costuras por todo seu corpo, incluindo sua cabeça (o que lhe confere o nome original “Stitch Head”), dando-lhe um aspecto que lembra um boneco feito de retalhos.
A rotina do menino não é ruim, mas é tediosa. Sempre esperando por uma migalha de atenção de seu criador, ele passa os dias lembrando os monstros de se manterem afastados dos aldeões, a fim de evitar conflitos. A ideia é fazer do interior do castelo um lugar seguro e, dentro do possível, acolhedor àqueles que não seriam bem vistos por quem aprendeu a temer o que lhes é diferente.
Tudo muda com a chegada de Fuberto (Seth Usdenov), um autonomeado “esquisitólogo”, proprietário de um “Circo de Horrores” que vê em Morro Tosco a chance de aumentar o interesse do público em suas atrações, a partir da inclusão de Frankie à trupe.
O jovem protagonista não enxerga os perigos da fama repentina e creia na possibilidade de tornar-se parte do coletivo, então, o simpático Criação (Joel Fry) – mesmo com toda a inocência de alguém nascido recentemente – será um importante parâmetro, uma espécie de bússola moral para abrir os olhos de Frankie (ainda que isso seja um processo, em partes, emocionalmente doloroso).
Enquanto a população se divide entre horror e fascínio, a pequena Arabella (Tia Bannon) mostra-se a mais consciente quando falamos em empatia e naturalidade para interagir com o próximo. Ainda que sob a proibição da avó Nana (Alison Steadman), a menina não desiste da missão de descobrir o que (ou quem) de fato se esconde no alto da montanha, nos aposentos do castelo.
A obra não é um musical, mas isso não impede que tenha boas sequências envolvendo canções que fazem parte da trilha original composta por Nick Urata. Além disso, a sagaz referência a “2001 – Uma Odisseia no Espaço” ao som de “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, e a improvável inserção de “Making Love Out of Nothing at All”, de Air Supply, obviamente merecem destaque.
Escrita e dirigida por Steve Hudson, a adaptação cinematográfica, embora recheada de figuras pouco usuais, trata com delicadeza de temas importantes como a importância de se aprender a conviver em grupo, superar medos – dos mais primários aos que nos vão sendo impostos no decorrer de nossas vidas – e a necessidade de se entender que a felicidade nem sempre está onde imaginamos ou queremos acreditar.
No fim, “Frankie e os Monstros” é uma linda representação do que se passa no coração dos “monstros” do filme: um misto de gentileza, doçura e sabedoria nata, que encanta e faz pensar, sem ser invasivo, apenas por não ter medo de ser quem é.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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