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Crítica: “Delírio”

Nem todas as perturbações têm base no sobrenatural. O histórico familiar de alguém pode parecer tão assustador quanto as mais mirabolantes histórias de ficção já imaginadas e isso é algo a se debater – até para evitar que tal identidade se perpetue através das gerações seguintes.

A premissa de “Delírio” (Delirio) é clara: há algo de muito errado no íntimo familiar do trio protagonista. Passada em São José, Costa Rica, a trama nos apresenta a médica Elisa (Liliana Biamonte), que, junto à filha única Masha (Helena Calderón), se muda para a casa da mãe, Dínia (Anabelle Ulloa).

A residência humilde, com pouca luminosidade (em adequado trabalho de fotografia de Esteban Chinchilla) e tamanho diminuto tem uma aura que sufoca, ao invés de atender a não tão velada expectativa de um abraço, um consolo.

Essa sensação de claustrofobia / pedido de socorro estranhamente evoca o retorno ao útero materno, o último lugar em que é possível sentir segurança, antes de encarar as mazelas do mundo.

Elisa assume a função de cuidar de sua mãe que começa a apresentar sintomas de demência. Lampejos de lucidez se alternam com momentos de confusão mental da idosa que parece esconder algo nas estranhas de seu passado, que, mesmo em dias atuais, segue reverberando na trajetória da família construída junto ao falecido marido.

Mistério também é o que ronda a justificativa para a mudança da médica e sua filha. A morte do pai de Masha após um acidente aéreo não é aceita pela menina, que insiste em afirmar que ele está vivo. Isso gera uma – proposital – confusão no público, que passa a se questionar se esse é apenas seu desejo infantil, ou se há, de fato, algo deixado para trás e que não deve ser trazido à tona nunca mais.

Tal percepção surge em tela através de sequências que acabam encontrando foco, mesmo quando encaradas por prismas distintos. Seja pela perda da consciência da idosa, pela infelicidade quase palpável da mulher de meia-idade ou pelo desespero dúbio da criança que almeja viver algo que nem sempre é possível quando se trata de laços familiares saudáveis.

Escrito e dirigido por Alexandra Latishew Salazar, em sua curta duração de apenas 74 minutos, “Delírio” se vende como terror – e talvez até possa ser assistido assim, dependendo da noção particular de cada um sobre o que considera intimidador. Mas, quando vista sob a ótica do drama, a produção, sem dúvida, ganha muito mais peso e profundidade.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pelo Filmes do Estação.

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