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Crítica: “Sorry, Baby”

“Se pensar em alguma coisa ruim, se achar que é algo ruim, com certeza eu já pensei o mesmo. Só que dez vezes pior.”

Quando os créditos finais de “Sorry, Baby” surgiram, minha primeira lembrança foi de uma frase, cujo ensinamento procuro levar por toda a vida: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”.

Longe de minimizar a importância do que nos aflige, em uma das suas citações mais famosas, o filósofo, escritor e crítico francês, Jean Paul Sartre, sugere que não nos deixemos definir pela dor que nos causaram, mas, que sejamos maiores do que nossos traumas. Que nossa existência não seja pautada pela maldade alheia que, em algum momento, nos foi infligida.

Não é uma tarefa fácil, é verdade. Contudo, ao seguir essa ideia, o longa de estreia de Eva Victor (que atua como roteirista, diretora e protagonista) traz um brilhantismo surpreendente à forma de se tratar um assunto tão delicado quanto o abuso sexual.

Passada na Nova Inglaterra, a história nos apresenta Agnes Ward (Eva Victor), professora da fictícia Universidade Fairport, onde se formou em Literatura e Inglês. E também onde conheceu seu algoz, Preston Decker (Louis Calcelmi), à época, orientador de sua tese final.

O execrável ato – ocorrido há quatro anos, durante o que seria uma reunião entre professor e aluna, para discorrer sobre o conteúdo de seu trabalho – não é mostrado explicitamente. Aliás, tudo acontece em uma sequência rápida, sem a participação efetiva dos personagens na tela, mas de modo a atingir em cheio os espectadores, que logo entendem o que acabou de acontecer.

Tal agressão, embora seja um dos pilares da narrativa, nunca é colocada com mais visibilidade do que o necessário. O que interessa é saber da real possibilidade de se continuar caminhando de cabeça erguida, mesmo que certas dores e cicatrizes da alma insistam em se manifestar, de vez em quando.

Agnes encontra na solidão, uma aliada. A reclusão que aumenta com a mudança de sua amiga / confidente Lydie (Naomi Ackie) para Nova York é parcialmente quebrada com a aproximação de seu vizinho, Gavin (Lucas Hedge), que se torna uma espécie de refúgio (físico e emocional) em momentos mais complicados.

A protagonista ainda abre o coração à Olga, uma gatinha em situação de rua, encontrada e imediatamente adotada por ela. A atitude – representada com delicadeza e carinho – é comprovada por estudos científicos e por experiências de outros tutores – como geradora de muitos benefícios na vida dos adotantes.

Diferente de tantas outras obras que já trouxeram o espinhoso assunto à tona, “Sorry, Baby” não tem uma essência triste. É claro que existem a revolta, as lembranças dolorosas, os questionamentos que nunca encontrarão respostas válidas.

A base da trama é a maneira singular como Agnes segue em frente, sabendo lidar com as consequências do trauma, sem que estas consigam impedir seu crescimento. A dor sempre existirá, porém, ela há de ser controlada.

Destaque para o monólogo final da produção. Ele é a prova de que poucas palavras, quando bem ditas, tem a capacidade de causar grandes impactos – e por que não, algumas lágrimas inesperadas também.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Mares Filmes

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