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Crítica: “Livros Restantes”

“Queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe, mas é crua, é viva: o Tempo.” (Hilda Hilst)

Sejamos ou não amantes da leitura, é fato que pelo menos uma história acompanharemos durante a vida: a de nossa própria existência. Narrativa essa escrita não somente por nós, mas por todos que deixam sua marca no livro de memórias que escrevemos a cada dia.

E são justamente essas lembranças que levam a protagonista de “Livros Restantes” a tomar a decisão de devolver obras presenteadas por pessoas importantes em cada época, e que registraram esses laços em forma de dedicatórias.

Ana Catarina (Denise Fraga) está de mudança para Portugal, após uma vida inteira passada em Barra da Lagoa – comunidade pesqueira de Florianópolis. Ao desfazer-se de quase todos seus bens materiais (preservando apenas uma mala de roupas), a ex-professora sente a necessidade de reconectar-se a alguns nomes de seu passado, antes da viagem.

Para isso, tenta marcar cinco encontros: com Kátia (Andréa Buzato), a melhor amiga que, mesmo distante fisicamente, nunca deixou de estar em seu coração. Com a também amiga de adolescência, Luciana (voz não listada nos créditos), que trilhou outros caminhos envolvendo religião e agora não faz nenhuma questão de relembrar seus dias de juventude.

Com Joilton (Marcinho Gonzaga), amigo que parece nutrir uma paixão há tempos guardada, mas que reconhece a passagem do tempo e das oportunidades perdidas. Com Tárik (Paulo Vasilescu), primeiro namorado que agora não hesita em insinuar estar disposto a trair a esposa, a fim de relembrar “os bons tempos”.

E, finalmente, com Carlos Henrique (Augusto Madeira), seu ex-marido e pai de sua filha única, Sofia (Manuela Campagna), com quem procura manter um relacionamento amigável, apesar de comportamentos e pensamentos tão distintos.

Cada passagem serve para mostrar a pluralidade de nossos relacionamentos e o quanto somos suscetíveis a mudanças. O que era extremamente relevante em alguma fase, em outra se torna esquecível. Assim como coisas que pareciam triviais, podem revelar-se preciosas quando vistas sob outro ângulo.

Também há espaço para acompanharmos o amor que une Ana à mãe, Antônia (Vanderléia Will) e ao irmão, Sérgio (Renato Turnes). O companheirismo e a cumplicidade entre eles servem como apoio às escolhas da protagonista e simbolizam o que há de melhor quando pensamos no real significado de família.

Sob a direção de Marcia Paraiso (também responsável pelo roteiro), o filme tem momentos de pura delicadeza, como a sequência que mostra Ana nadando em mar aberto, em um lindo contraste entre a imensidão das águas e o tamanho diminuto de um ser humano que nelas adentra.

Assim como consegue tratar de assuntos que machucam (mesmo quando varridos para baixo do tapete da hipocrisia que tantas vezes se faz presente no âmbito familiar) de maneira eficiente, sem acrescentar um peso que não caberia à narrativa.

“Livros Restantes” é aquele tipo de produção que se faz necessária, de vez em quando. Para nos lembrar do que realmente importa, do que vale a pena levar conosco e do que queremos preservar em nossas mentes e corações.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela H2O Films.

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