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Crítica: “Morra, Amor”

“Estou presa entre querer fazer algo e não querer fazer absolutamente nada.”

Por mais que a sociedade insista em colocar filtros (literais e metafóricos) na representação do que chamamos de “vida”, a verdade é que a maioria dos relacionamentos humanos não é exatamente algo fácil de lidar.

A ilusão do casamento perfeito que nunca passa por momentos de crise, da carreira que se mantém sólida por todo período que precisamos trabalhar (antes de estarmos “velhos demais” para exercer as funções ou aproveitar o que resta da nossa existência em paz), as amizades “eternas” que não se corrompem por inveja, talvez sejam apenas isso: uma ilusão.

E, “Morra, Amor” (Die my Love) toca em um desses pontos de maneira crua, colocando sal sobre uma ferida que atinge inúmeras pessoas, no que parece ser uma espiral crescente e infinita: problemas relacionados à saúde mental.

Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson) demonstram ser um casal apaixonado, ainda na fase em que acreditam que mudanças drásticas têm o poder de influenciar positivamente o que já parece bom (nesse caso, um relacionamento pautado em um interesse físico que dá as cartas na maior parte do tempo).

Quando eles trocam o agito de Nova York pela calmaria do interior de Montana, algumas coisas começam a desmoronar (interna e externamente). A casa para a qual se mudam (deixada por um tio recém-falecido de Jackson), ao invés de acolher, sufoca.

As ambições dos protagonistas se desencontram: ele abraça a frustração de uma carreira musical que nunca existiu – na forma de uma bateria esquecida em um quarto. Passa dias fora, devido a um serviço que o obriga a estar sempre em trânsito, e que, supostamente, serve como desculpa para insinuadas traições.

Enquanto ela abre mão do trabalho como escritora, para dedicar-se integralmente às funções de dona-de-casa e mãe de primeira viagem. Mas, uma mudança tal radical não traz bons frutos e a mente de Grace entra em um colapso que assusta por sua rapidez e gravidade.

Assim como incomoda a falta de percepção de seu marido que até reconhece que há algo errado, mas não faz nada efetivo para ajudar a resolver. Não que Jackson seja alguém ruim, porém, deixa dúvida se o que vemos é, de fato, uma ampla inaptidão ou um caso trivial de má vontade.

Nessa história ainda cabem outros personagens – cujas participações são bem menores, contudo relevantes: Pamela (Sissy Spacek) e Harry (Nick Nolte), pais de Jackson que moram nas proximidades e têm seus próprios infortúnios para lidar – com a diferença de que estes são impostos pela inexorável passagem dos anos e pelo degradar da saúde.

Completando as figuras em cena, Karl (Lakeith Stanfield) é um misterioso motoqueiro, cuja existência real nunca é confirmada pelo roteiro de Lynne Ramsay (também à frente da direção), Elda Walsh e Alice Birch, fazendo com que possa ser visto tanto como uma criação mental de Grace, quanto como uma válvula de escape física em uma rotina que não lhe apraz.

“Morra, Amor” é baseado no livro homônimo de Ariana Harwicz e, embora tenha passagens bastante problemáticas e de necessidade questionável (também vistas da obra original), segue como uma boa fonte de discussão sobre nuances da realidade que nem sempre são encaradas / tratadas com a urgência e seriedade que deveriam.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.

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