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Crítica: ” O Morro dos Ventos Uivantes”

“Eu nunca vou te deixar. Não importa o que você faça.”

Logo após sair da Cabine de Imprensa de “Emily” (drama biográfico escrito e dirigido por Frances O’Connor, com Emma Mackey no papel principal) em 2023, prometi a mim mesma que leria o único livro escrito pela autora britânica Emily Brontë e que se tornou um dos maiores feitos da literatura.

Parte dessa promessa foi cumprida apenas agora, em 2026, já que tinha a intenção de conhecer o conteúdo original, antes de assistir à sua nova adaptação cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Mas, após as páginas iniciais, notei que, talvez, a história não seja bem o que busco em minhas leituras – ainda que me considere uma leitora bastante eclética.

Dessa vez roteirizado e escrito por Emerald Fennell, e ostentando aspas oficiais em seu título, “O Morro dos Ventos Uivantes” (“Wuthering Heights”) já mostra desde o primeiro som ofertado aos espectadores que não terá tantas amarras quanto as impostas pela época na qual a obra foi escrita. Algo como “sai a sugestão, entra o explícito” – ou perto disso.

A narrativa se passa em Yorkshire, norte da Inglaterra, durante o início do século XIX, e nos apresenta o Sr. Earnshaw (Martin Clunes), que passa a ideia de já ter sido um nome influente na sociedade, mas que se vê enfrentando os problemas decorrentes de uma dependência que alterna entre jogos e bebida.

Em um momento que poderia soar como benevolente, ele leva um órfão desconhecido (Owen Cooper) para sua casa. Contudo, a anuência diante da afirmação de que filha Catherine (nessa fase vivida por Charlotte Mellington) irá tratar o garoto como um “pet” faz essa impressão de louvável caridade cair por terra.

Agora nomeado Heathcliff, o menino alterna momentos agradáveis – todos passados juntos a Cathy – e punições físicas, sejam devido ao não cumprimento de alguma tarefa a ele imposta ou porque os anos vão deteriorando sua relação com o homem que parecia ter impedido que um destino pior lhe fosse imputado.

O que a passagem do tempo não é capaz de oxidar é a relação de incessante urgência (mascarada sob a justificativa de proteção e cuidados exacerbados) entre os protagonistas que, agora jovens adultos e interpretados por Margot Robbie e Jacob Elordi, não se demonstram exatamente aptos a lidar com a gama de sentimentos que transborda a cada reencontro em Wuthering Heights, propriedade onde vivem.

Mais do que uma paixão avassaladora – cuja consumação demora um tempo considerável – a sensação é a de que os personagens têm uma necessidade um do outro, impossível de ser aplacada por completo. Como se eles fossem uma figura única.

Se nas páginas, a complexidade é bem maior – segundo relatos de amigos que leitores -, em tela, o grande entrave para a relação ganhar corpo é o abismo que separa o casal, representado pela iniquidade de suas classes sociais. Como se houvesse uma doença invisível que afetasse a sociedade no geral, privilegiando os abastados em detrimento dos demais (sim, pouca coisa mudou, ainda que vivamos em outro século).

Tal elemento é responsável pela decisão de Cathy aceitar o pedido de casamento de Edgar Linton (Shazad Latif), dono de Thrushcross Grange, terras vizinhas à da família da jovem e sinônimo de segurança financeira para ela. Assim como a ambição por dinheiro, poder e ascensão social também é o que leva Heathcliff a ir embora e só retornar após cerca de cinco anos, quando já alcançou tudo que desejava (ou quase).

Duas outras mulheres completam o grupo de figuras femininas com mais relevância em tela: a governanta dos Earnshaw, Nelly (Hong Chau), cujo comportamento se alterna entre o misterioso e o friamente calculado; e Isabella (Alison Oliver), protegida de Edgar, que confunde o espectador com sua aura que transita entre uma inocência forçada e uma – não tão surpreendente – e voluntária escalada a um relacionamento pouco convencional.

Visualmente, “O Morro dos Ventos Uivantes” é um deslumbre. Os figurinos (anacrônicos e exagerados) de Jacqueline Durran e o excelente trabalho de fotografia de Linus Sandgren são daquele tipo que muito satisfaz o público que opta por assistir ao filme em salas IMAX.

Quanto às amplamente discutidas alterações na trama, creio que, se o longa tivesse sido idealizado como um drama de época / psicológico / romântico, sem nenhuma ligação ou menção à obra de literária de 1847, estas seriam menos problemáticas – já que não teriam uma fonte prévia para comparação.

Eis que uma das passagens mais famosas do livro – reconhecida até por quem, como eu, não o leu – faz todo sentido: “Seja qual for a matéria de que as nossas almas são feitas, a minha e a dele são iguais”. Compreender (e aceitar) a amplitude de tal percepção, talvez seja a chave para tornar-se mais (ou não) mais um admirador na devotada legião de fãs de Emily Brontë.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.

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