“Esta é a situação dos estrangeiros. E esta é a sua gigantesca desumanidade.” (William Shakespeare)
A primeira coisa que aparece em tela ao assistirmos a “O Caso dos Estrangeiros” (I was a Stranger) é uma citação da peça colaborativa “Sir Thomas More”, escrita no final do século XVI / início do século XVII. E essa é a primeira vez que teremos nossos corações feridos durante os 97 minutos de duração do filme baseado no curta metragem de 2020, “Refugee”.
Isso porque é inaceitável a percepção de que, dada a óbvia passagem de tempo, termos evoluído tão pouco em relação à causa dos imigrantes que saem de suas terras natais em busca do que lhes deveria ser ofertado naturalmente: dignidade e segurança. Em suma: lutam por sobrevivência.
Escrito e dirigido por Brandt Andersen, o longa é dividido em cinco capítulos, cada qual apresentando ao espectador uma visão singular dos fatos. São história de cidadãos que veem tudo ao se redor ser estilhaçado por bombas, enquanto seu emocional é destruído pela intolerância e crueldade daqueles que há tanto tempo ocupam cargos de poder.
A narrativa se passa em locais distintos, sendo Alepo, Síria, o cenário dos dois iniciais. No primeiro (“A Médica”), a radiologista pediátrica, Amira Homsi (Yasmine Al Massri) tem sua ética profissional posta em julgamento, ao não fazer distinção de quem deve salvar, afinal, como lhe é dito, “Se você salva um inimigo, você é o inimigo”.
Após um exaustivo plantão de 72 horas, Amira ainda busca forças para não frustrar a filha única, Rasha (Massa Daoud), que faz questão de celebrar o aniversário da mãe, ao lado dos avós e tio. Mas, a pequena comemoração é encerrada por uma bomba que, sem nenhuma cerimônia, cai sobre o teto que abriga a família.
Quase simultaneamente, desenrola-se o segundo episódio, “O Soldado”. Nele, vemos Mustafa Faris (Yahya Mahayni), de arma em punho – como se fosse uma extensão de seu corpo -, pôr em dúvida se a matança da qual é testemunha diária, continua fazendo sentido (se é que realmente chegou a fazer algum dia).
As terceira parte se passa em Izmir, Turquia. Marwan (Omar Sy) é “O Traficante de Pessoas” que surge como uma espécie de farol na vida dos que, mesmo temendo o que lhes aguarda e todas as consequências de dar um salto no escuro, buscam refúgio em outros países. O bote simples oferecido – a uma quantia que, muitas vezes é tudo que aquelas pessoas possuem – é a única separação entre um futuro íntegro e a morte certa nas águas.
Também na Turquia, mas na cidade de Kusadaki, ocorre o próximo capítulo, “O Poeta”, no qual acompanhamos a jornada de Fathi (Ziod Bakri) e sua família, para o que julgam ser a única esperança após a fuga de um campo de refugiados. É também o momento em que somos lembrados de que, junto aos humanos, outros tantos animais são vítimas de conflitos – aparentemente intermináveis – ao redor do mundo.
A que seria a derradeira divisão da narrativa se dá em Lesvos, Grécia, e tem como protagonista “O Capitão” Stavros (Constantine Markoulakis), atuante da Guarda Costeira Grega. Em anos de trabalho e na ânsia de salvar imigrantes que buscam manterem-se vivos longe de seus países, ele já salvou mais de onze mil vidas. Mas, a perda de outras – que também chegam à casa dos milhares – segue doendo e lhe privando de paz.
Quando tudo parece ter findado na proposta do roteiro, uma sequência curta, passada nos corredores de um hospital em Chicago, Illinois, serve para mostrar que, mesmo quando a vida não é ceifada em ambientes de guerra, o que resta dela nem sempre pode ser considerado como uma nova chance. Muitas batalhas internas serão travadas até o fim dos dias.
O modo como as histórias dos citados personagens se entrelaçam é o que constitui a base de “O Caso dos Estrangeiros”. Cada quebra de perspectiva, cada migalha de fé que não parece suficiente para sustentar aqueles que sofrem, tudo resulta em uma trama que não precisa de grandes artifícios para arrebatar o público.
A consciência de que casos semelhantes estão acontecendo nos momentos em que eu redijo e você lê essas palavras, já basta para nos fazer sentir minúsculos diante do poderio de quem já nem procura motivos para seguir essa trilha de sangue e dor. E que permanece fingindo não ouvir a triste pergunta repetidamente feita por milhares de inocentes: “O que a gente fez de errado?”.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes.


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