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Crítica: “A Noiva!”

“A Vida está aqui. E está vindo até vocês através dos Monstros.”

Mais de dois séculos após seu lançamento, “Frankenstein – Ou o Prometeu Moderno” permanece entre os maiores títulos literárias de todos os tempos. E, ocupando seu lugar entre os clássicos a obra escrita pela autora britânica Mary Shelley, segue rendendo conteúdo para as mais diversas versões, passando por telas, palcos e páginas com a mesma competência.

Em sua segunda incursão como diretora, Maggie Gyllenhaal (também responsável pelo roteiro) faz com que o “Monstro” que ganha vida através das mãos de Victor Frankenstein divida o protagonismo com uma figura que não teve a chance de se destacar no livro original (ganhando uma forma definitiva apenas em 1935, no longa estrelado por Elsa Lanchester).

“A Noiva!” (The Bride!) é a merecida chance de a personagem estrelar sua própria história, defender suas opiniões e eternizar seu nome com muito mais camadas narrativas. E como é bom vê-la em ação de modo tão potente e relevante.

Passada em 1936, na cidade americana de Chicago, a trama nos apresenta Ida (Jessie Buckley), uma garota de programa com serviços oferecidos especialmente a gângsters da região. Até que apresenta uma inesperada mudança de comportamento durante um jantar em um restaurante.

A explicação para essa alteração é tão simples quanto inusitada: a jovem está sendo possuída pelo espírito de Mary Shelley (também interpretada por Jessie Buckley), que não se conforma por ter morrido tão prematuramente, aos 53 anos.

A ânsia em dar forma a opiniões e pensamentos que foram sepultados com ela, faz com que o corpo de Ida passe a abrigar duas consciências distintas. Até que, ao fugir dos capangas do chefão da máfia, Vito Lupino (Zlatko Buric), ela sofre uma queda mortal de uma escada.

Simultaneamente, vemos a concepção de Frankenstein – que agora assumiu o sobrenome de seu criador, com direito à abreviação para “Frank” (Christian Bale) – em busca de uma companheira que lhe tire da persistente solidão que o acompanha há mais de um século de existência.

Para isso, recorre à cientista Drª Euphronius (Annette Bening), reconhecida por suas experiências de reanimação de animais. Relutante, a princípio, logo ela cede à oportunidade de trazer de volta à vida uma mulher que possa aceitar Frank com todas as imperfeições que o transformaram em um pária.

A escolhida é Ida, cujo falecimento data de poucas horas antes e o corpo – embora muito machucado devido ao tombo – é visto como ideal para o discutível intento da dupla. Uma solução bem mais prática e rápida do que juntar partes de vários cadáveres aleatórios, aliás.

O fato de ter “retornado à vida” sem nenhum tipo de recordação de seus dias passados contribui para que a protagonista – agora nomeada Penelope Rogers – comece a escrever novas memórias ao lado daquele que acredita ser seu marido.

E, entre muitas sessões de cinema – sempre regadas a musicais protagonizados por Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal) – e uma sede de liberdade / reconhecimento de valor que parece nunca ser saciada, o improvável casal viverá momentos cuja intensidade oscilará de acordo com a proposta da narrativa em pontos específicos.

Sob a linda fotografia de Lawrence Sher, “A Noiva!” é um apanhado de boas ideias que, quando reunidas, geram um produto muito interessante. Das dúvidas e temores gerados pela incerteza de aceitação dos demais indivíduos, à faísca que faz com que as mulheres – relegadas ao papel de coadjuvantes sem relevância na sociedade – passem a batalhar para ter voz ativa diante de quem minimiza suas existências. Vários são os tópicos debatidos com habilidade pelo roteiro.

Há muito a se destacar no filme, mas dois itens tornaram-se meus favoritos: a sequência de dança ao som de “Putting on the Ritz” (uma versão mais séria, mas tão magnífica quanto a vista em “O Jovem Frankenstein”, do icônico diretor Mel Brooks, em 1974). E a trilha sonora composta por Hildur Gudnadóttir, que entrega mais um trabalho memorável.

Sobre questionamentos, além dos óbvios que são propostos ao logo dos 126 de duração do longa, outros podem parecer obstáculos a quem não se entregar por inteiro à viagem nas telonas. Caberá a cada espectador sobrepor-se a eles e embarcar na ideia original da produção.

Ainda compondo o elenco, Penélope Cruz e Peter Sarsgaard interpretam os detetives Myrna Mallow e Jake Wiles, respectivamente, e acrescentam teor ao debate sobre diminuição da figura feminina na coletividade. Enquanto Jeannie Berlin dá vida à misteriosa Greta, empregada / ajudante da Drª Eufonius.

Lembrando que há uma (ótima) cena adicional durante os créditos finais. Vale muito a pena conferir o que os mortos têm a dizer.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.

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