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Crítica: “Pinóquio”

“Você é corajoso, é gentil e muito inteligente. Ser de madeira é só um detalhe.”

Quando servem de tema para a criação dos mais diversos conteúdos, algumas histórias correm o risco de ficarem marcadas no imaginário popular por causa de uma versão específica. E qualquer coisa que fuja disso, tem seu valor – muitas vezes, injustamente, diminuído.

Para se gostar de “Pinóquio” (The Golden Key – A New Pinocchio Story) é preciso deixar de lado o que boa parte do público tem em mente sobre o boneco de madeira que ganha vida, uma vez que a interpretação dirigida por Igor Voloshin é baseada na obra “A Chave de Ouro / Aventuras de Buratino”, de Aleksei Tolstói.

Então, o que pode ser visto como mudanças inesperadas na trama é, na verdade, um resultado mais distante da criação do italiano Carlo Collodi (lançada em 1883) e mais próximo do que o livro do autor russo de 1936 propõe. É seu grande diferencial e seu maior desafio.

A narrativa – agora contada por um trio de baratas liderado por Giovani (voz de Vanya Dmitrienko) – nos apresenta o gentil carpinteiro Gepeto (Alexander Wiktorowitsch Jazenko), que se sente muito solitário, após a perda da esposa Maria.

Até que, milagrosamente (entenda-se pelo providencial intermédio das simpáticas baratas), ele tem acesso a uma chave mágica – pertencente à Senhora Tartaruga (Swetlana Wladimirowna Nemoljajewa) – que, apesar do nome, continua sendo uma espécie de fada.

O artefato é capaz de realizar um desejo, então, Gepeto pede por um filho para lhe fazer companhia. As coisas não saem exatamente como imaginadas, mas, graças à magia impregnada em um toco de madeira, ele esculpe um boneco que, para sua surpresa, ganha vida.

O coração da fábula clássica segue presente nessa adaptação roteirizada por Aksinya Borisova, Alina Tyazhlova e Andrey Zolotarev. A fuga de Pinóquio (captura de movimento de Vitaliya Kornienko) com uma trupe teatral – aqui, comandada pelo cruel Karabas Barabas (Fedor Bondarchuck), o arrependimento / vontade de retornar ao lar, as dúvidas sobre o quanto é capaz de ser amado do jeito que é.

Assim como são grandes as mudanças, em especial, no que diz respeito à exclusão do fato de seu nariz crescer quando mente (essa versão do personagem é bastante sincera). Com o nome Pinóquio sendo até mesmo uma espécie de sinônimo quando afirmamos que alguém é mentiroso, tal desassociação parece bem arriscada.

O destaque narrativo fica para a capacidade do protagonista de enxergar o bem em figuras que, a princípio, podem não inspirar tal atitude. Ao entender as motivações de Pierrot (Stepan Belozyorov), Arlequim (Ruzil Minekaev), Malvina (Anastasiya Talyzina) e Artemon (Mark Eydelshteyn), fica mais clara sua sorte por ter sido criado por alguém compreensivo e amoroso como Gepeto.

Na parte técnica, há um grande acerto nos ótimos figurinos de Nadezhda Vasilyeva e na coragem de transformar o longa em um musical com ares de teatro, cuja trilha sonora de Aleksey Rybnikov – composta por versões atualizadas de clássicos russos – deve fazer mais sentido aos conhecedores dessa parte da cultura do país, mas consegue despertar interesse também em quem as ouve pela primeira vez.

Ainda vale ressaltar a decisão de se “humanizar” o aspecto do boneco – dando-lhe até mesmo uma covinha na bochecha – mas sem minimizar a importância de mantê-lo como alguém feito de madeira (o que se pode observar no modo como seu cabelo é apresentado, com cachos feitos de lâminas do tronco a partir do qual foi cuidadosamente esculpido).

Se assistido sem expectativas irreais ou comparações óbvias / prévias, “Pinóquio” acaba se tornando uma experiência bem interessante.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes.

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