“Acredite: Não há nada mais assustador do que a sua realidade.”
Como já mencionado tantas vezes, o avanço crescente da tecnologia é um dos grandes pilares da sociedade atual. Dizer que não existem claras vantagens nisso, seria uma grande hipocrisia (até porque, escrevo essas palavras – que posteriormente serão eternizadas na Internet – através de um computador).
Mas, embora haja uma óbvia facilidade em se realizar incontáveis tarefas em todos os ramos de nossas vidas, a verdade é que uma pergunta permanece: Até que ponto nos deixaremos “dominar” pelos progressos tecnológicos, sem que isso nos coloque em risco real?
Dirigido por Gore Verbinski, “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” (Good Luck, Have Fun, Don’t Die) se baseia em tal questionamento de maneira surpreendente, alternando entre comédia e ficção científica, para resultar em uma produção que consegue fazer rir e refletir com a mesma intensidade.
Sem ter seu nome revelado, o protagonista do longa se apresenta como um Homem do Futuro (Sam Rockwell), que, segundo improváveis explicações, voltou no tempo para tentar impedir a destruição da humanidade.
Se a afirmação de ser um viajante temporal soa como inacreditável para a maioria, o mesmo não se pode dizer sobre a plausibilidade de suas revelações sobre o que nos espera em épocas vindouras. Afinal, com tantas coisas que já aconteceram na área das ciências em geral, quem pode garantir que, em algum momento, (seja em poucos ou muitos anos), a Inteligência Artificial não será capaz de se tornar autônoma e passará a controlar por completo seus fiéis usuários?
A narrativa escrita por Matthew Robinson se passa nos dias atuais, em uma lanchonete genérica, em Los Angeles. De acordo com o relato do Homem do Futuro, essa é sua 117ª tentativa de impedir o fim do mundo. Para ter êxito, precisa encontrar, dentre milhões de combinações possíveis, a formação correta de uma equipe que o ajudará a encontrar o responsável pelo apocalipse que se vai se instaurar no pesadelo apocalíptico.
Diferente do que poderia ser esperado, nenhum dos integrantes do heterogêneo grupo tem poderes ou habilidades especiais: Mark (Michael Peña) e Janet (Zazie Beetz) são professores de segundo grau, infelizes com seu trabalho; Susan (Juno Temple) é uma mãe de família que acabou de perder o filho único, Darren (Riccardo Drayton) em um tiroteio no colégio.
Completando o time, Ingrid (Haley Lu Richardson) é uma jovem avessa à tecnologia, que parece ter desistido de viver; Scott (Asim Chaudhry) é um motorista de aplicativo que, mesmo duvidando de tudo que ouviu, decide seguir os outros voluntários na empreitada; o Chefe de Escoteiros, Bob (Daniel Barnett), E Marie (Georgia Goodman), que só queria comer seu pedaço de torta em paz.
Ao contar o que levou cada personagem até aquele exato ponto na lanchonete, o longa dá ao público a chance de pelo menos tentar entender determinadas atitudes. Assim como aumenta o temor da possibilidade de vivermos entre pessoas que banalizam fatos importantes, por acreditar que as inovações digitais são capazes não só de consertar, mas de fazer tudo melhor.
Entre ótimas situações cômicas, o filme também consegue acrescentar seriedade a assuntos relevantes. A “zumbificação” (especialmente da nova geração) de quem se torna dependente dos recursos de celulares; a perda da identidade que faz com que tantos pareçam iguais – seja no físico ou em pensamentos – quase como se fossem clones de si próprios; a incapacidade de se envolver com seu semelhante de modo orgânico, sem precisar recorrer a aplicativos de mensagens ou redes sociais.
“Boa Sorte. Divirta-se, Não Morra” não é o tipo de obra que agrada a todos, mas se a sua mescla de ficção exagerada / ocorrências não tão impossíveis conquistar o espectador, vai se mostrar digna de sua atenção do início ao fim. E essa é sua maior qualidade.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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