“Estamos livres! Estamos livres?”
Certos medicamentos necessários em um processo de recuperação não são exatamente palatáveis. Alguns sabores adocicados e artificiais são acrescentados à formula, mas, no fundo, o amargor não deixa de existir, ele é apenas mascarado.
Talvez essa seja a única maneira de definir a nova versão animada de “A Revolução dos Bichos” (Animal Farm), baseada na importante obra homônima lançada oficialmente por George Orwell, em 1945.
Através de uma interessante alegoria que coloca animais de uma fazenda como protagonistas, o autor britânico faz uma crítica (que segue relevante, mesmo após décadas) a questões ligadas a regimes totalitários e à desigualdade social.
Embora mantenha muito do conteúdo original, o longa dirigido por Andy Serkis sucumbiu à tentação de “modernizar” a história, trazendo para o centro das atenções o quão fácil é se perder dentro do labirinto do capitalismo, com animais (mais especificamente, porcos) que não mais se contentam em levar vidas “simples” como fazendeiros.
De acordo com o roteiro escrito por Nicholas Stoller, agora os suínos têm ambições muito maiores, que só podem ser alcançadas através do status gerado por roupas de grife, cartões com crédito ilimitado e carros cujo valor astronômico facilmente seria o bastante para garantir outros bens de maior importância.
A trama começa mostrando a insatisfação dos animais da Fazenda Manor, onde muitos encaram uma rotina de trabalho pesado e sem nenhuma perspectiva de futuro. Quando o proprietário do local, Sr. Jones (voz de Andy Serkis / Francisco Júnior) está prestes a perder a propriedade – devido a dívidas bancárias – o destino dos bichos é selado com o encaminhamento ao Matadouro.
É o primeiro passo da tal revolução, com Jones sendo expulso de suas próprias terras, que passam a ser geridas pelos animais – que, felizmente, não são abatidos, graças à descoberta feita a tempo por Bola de Neve (Laverne Cox / Carol Valença), uma inteligente porca que sabe ler e escrever.
Sem o jugo de nenhum humano, a ideia é oferecer uma realidade justa a todos os moradores da agora chamada “Fazenda dos Animais”. Mas, essas aparentes justiça e liberdade não são gratuitas e as novas regras impostas até carregam seu valor, mas também seguem como elementos de limitação, quando vistas mais a fundo.
Criado para a animação, o filhotinho de porco, Sortudo (Gaten Matarazzo / Gabriel Martins), acrescenta um olhar mais apaziguador e esperançoso à narrativa – o que funciona para tornar a moral do texto mais entendível para crianças, mas que, ao mesmo tempo, tira parte da crueza necessária das palavras originais.
No geral, a maioria dos personagens consegue estabelecer sem dificuldade como os espectadores devem considerá-los. Destaques para Sansão (Woody Harrelson / César Marchetti), o doce e idoso cavalo que não precisa de conhecimentos humanos para ser justo e sábio. E para o porco Napoleão (Seth Rogen / Guilherme Briggs), cuja astúcia faz com que tenha capacidade de trabalhar em conjunto com a bilionária inescrupulosa, Freida Pilkington (Gleen Close / Cecília Lemes), enquanto ambos almejam um tipo de controle que não deveria ser dado a ninguém.
Com um estilo de animação simples (mas bem agradável) e uma trilha sonora eclética – que vai de Johann Strauss a 2 Unlimited – “A Revolução dos Bichos” acerta em trazer à tona tópicos que, por mais que o tempo passe e a sociedade se modifique, não dão indícios de ser tornarem ultrapassados tão cedo.
E, exatamente por isso, peca em distorcer o cerne da mensagem passada por George Orwell e diminuir seu impacto, mesmo sob a justificativa ilustrada por uma fala dita em dado momento da produção: “Não é uma mentira. É uma esperança”.
Às vezes, são justamente os remédios mais amargos, os que trazem a cura duradoura.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paris Filmes.


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