“Se eu soubesse que o fim do mundo seria amanhã, eu ainda plantaria uma macieira, hoje.”
Sobretudo em dias atuais, é improvável acreditar que existe alguém imune ao sofrimento. E, quanto mais pensamos nisso, maior é a chance de nos depararmos com uma triste realidade, na qual o que deveria ser a exceção, tornou-se a regra: todos (assumidamente, ou não) temos algum grau de ansiedade.
E isso não é demérito algum, mas a triste consequência de se viver em um mundo que cobra eficiência, perfeição e sucesso de maneira incessante e injusta e que limita (ainda mais) nosso já curto tempo de existência, ao criar barreiras que exaltam absurdos como o etarismo.
Quem pensa que a ansiedade é algo fácil de explicar, está enganado. Dentro dela, há inúmeras vertentes, algumas óbvias, outras que surpreendem, como a chamada “ecoansiedade”, traduzida como o medo a angústia sentidos em relação às constantes mudanças climáticas e às suas consequências ao futuro do planeta.
Isso é o que acontece com Adam (Patrick Hivon) em “Amor Apocalipse” (Amour Apocalypse / Peaky Everything). Aos 45 anos, ele tem como companhias mais próximas apenas o rigoroso pai, Eugène (Gilles Renaud); o carente amigo, Frank (Éric K. Boulianne); e a volúvel funcionária do canil do qual é proprietário no Canadá, Romy (Elisabeth Mageren) – esta, no centro de uma desnecessária cena de maus tratos animais.
Visando diminuir seus sintomas, busca tratamento padrão – sessões de terapia e remédios controlados – sem descartar outras métodos de auxílio alternativo, como áudios usados em meditações guiadas. Mais um recurso surge como alternativa válida, quando adquire a Polar Lux, uma lâmpada terapêutica modelo piramidal, que promete acalmar o usuário que se dispuser a olhar para ela fixamente por determinado tempo.
Quando não sente os efeitos desejados, Adam entra em contato com uma central de atendimento da empresa responsável, julgando ser uma plataforma de ajuda emocional (e não um simples canal para reclamação e/ou troca). Tal equívoco faz com que fale de maneira franca com Tina (Piper Perabo), atendente que, em oposição ao que se poderia esperar, acolhe Adam e ouve com cuidado e amabilidade o que se passa em seu coração.
Um inesperado afeto começa a florescer e, sem que ele perceba, já se importa o suficiente para enfrentar seus medos e cruzar o país até Ontário, onde conhecerá a amiga / pretendente, após um terremoto acometer a província onde ela reside / trabalha. A proximidade física deixa os personagens em dúvida sobre como agir, mas é evidente o quão forte e natural é a ligação dos dois, como se já se conhecessem há muito tempo. Porém, carregam histórias, dores e amores prévios e nunca deixam de ter consciência disso.
Existem pontos bem interessantes no longa escrito e dirigido por Anne Émond, em especial no que diz respeito aos nomes dos protagonistas: Adam (ou na versão brasileira, “Adão”) remete, segundo relatos bíblicos, ao primeiro ser humano criado por Deus; Já Tina é um famoso acrônimo em inglês para “There is no Alternative” (em tradução literal, “Não há alternativa” – o que é o maior temor de Adam, quando pensa no futuro do planeta).
Ao fugir das armadilhas “simplistas” (mas, obviamente, válidas) do amor romântico, o roteiro de “Amor Apocalipse” aposta na construção de uma história que ganha força nos detalhes e na necessidade intrínseca que o ser humano tem, de criar laços que o ajudem a enfrentar as aflições da vida.
por Angela Debellis
Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Synapse Distribution.


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