A saga “A Morte do Demônio” (Evil Dead) impactou toda a indústria cinematográfica desde de seu primeiro filme, uma obra independente quase sem orçamento dirigida por um inexperiente (mas genial) Sam Raimi, aos 21 anos, em 1981. Com “A Morte do Demônio: Em Chamas” (Evil Dead: Burn), o sexto capítulo da franquia, a obra atinge novo grau técnico e narrativo.
A trama nos apresenta Alice (Souheila Yacoub), que vive o luto pela perda do marido, Will (George Pullar). Porém, vamos descobrindo os segredos macabros dele e da família, cujos problemas são multiplicados quando os demônios chegam.
Mesmo se não houvesse a ameaça sobrenatural, teríamos um trailer doméstico tenso. Não só o marido falecido, mas também cada membro da família é problemático, com comportamentos extremos. Talvez a única exceção seja Polly (Maude Davey), a avó com problemas neurológicos e que funciona, por vezes, como alívio cômico.
Esse é um dos raros longas recentes de terror que se permite ter momentos de humor, não se transformando em uma comédia, mas gerando pequenos respiros para os momentos seguintes de tensão.
A mitologia dos demônios é mantida e aumentada. As entidades entram por contaminação de contato direto. Mais do que uma mera substituição de personalidade, elas absorvem e pervertem a mente do hospedeiro, criando uma nova psique monstruosamente sádica.
Diferentes de meros zumbis, além de terem uma mente racional bem ativa, os possuídos são utilizados como fantoches de carne pelas entidades, quase imparáveis, independentes do nível de destruição corporal.
E aqui entra a importância brutal da maquiagem e dos efeitos práticos com uso pontual da computação gráfica, capazes de gerar possuídos que ficam cada vez mais grotescos durante a narrativa, à medida que são atingidos pelos sobreviventes.
Retornando à mitologia geral da franquia, temos a explicação de como os eventos dos primeiros filmes não evoluíram para um apocalipse, funcionando como uma continuação indireta, ao mesmo tempo em que funciona com uma obra independente de seus antecessores.
Ajudando no clima de terror, a fotografia de Philip Lozano tem uma movimentação de câmera que leva ao limite as sensações de estranhamento, mas sem comprometer a visualização dos acontecimentos.
Ao contrário de mortos vivos, demônios são seres anteriores à humanidade, que se alimentam da dor e estimulam nosso pior lado. São a imagem da perversidade do nosso eu, aquela que combatemos diariamente, algo bem trabalhado na produção dirigida por Sébastien Vanicek (também responsável pelo roteiro, junto a Florent Bernard).
Por fim, a protagonista, Alice, é uma final girl clássica usada para discutir diversos tipos de relações tóxicas. A cereja do bolo que deixa “A Morte do Demônio: Em Chamas” ainda mais saboroso.
Para os fãs da franquia e do gênero splatter punk, a obra é especular, ficando o aviso de cuidado ao telespectador sensível, uma vez que o roteiro trabalha com violência extrema explícita, natural do gênero.
por Luiz Cecanecchia – especial para A Toupeira
*Título assistido em Pré-Estreia promovida pela Sony Pictures.


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